     Fernando Sabino



O Menino
no Espelho
               Romance
        Desenhos de Carlos Scliar
             64 EDIO




http://groups.google.com.br/group/digitalsource




        EDITORA RECORD
   RIO DE JANEIRO  SO PAULO
              2003
                      CIP-Brasil. Catalogaco-na-fonte
                Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
              Sabino, Fernando, 1923-
S121m         O menino no espelho: romance / Fernando Sabino -
64 ed.       64a ed. - Rio de Janeiro: Record, 2003.
                   208p.

              I. Romance brasileiro. I. Ttulo.

                                                  CDD - 869.93
82-0684                                           CDU- 869.0(81)-31


Capa: Concepo de F. S.
Desenhos e planejamento grfico: CARLOS SCLIAR

Proibida a reproduo integral ou parcial em livro ou qualquer outra forma de
publicao sem autorizao expressa do autor. Reservados todos os direitos de
traduo e adaptao.
Copyright 1989 by Fernando Sabino.
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                                                       EDITORA AFILIAD
O autor,  poca dos acontecimentos
      narrados neste romance.
                            SUMRIO

         PRLOGO
     O MENINO E O HOMEM

         CAPTULO I
   GALINHA AO MOLHO PARDO

         CAPTULO II
   O CANIVETINHO VERMELHO

        CAPTULO III
     COMO DEIXEI DE VOAR

          CAPTULO IV
O MISTRIO DA CASA ABANDONADA

        CAPTULO V
   UMA AVENTURA NA SELVA

        CAPTULO VI
 O VALENTO DA MINHA ESCOLA

        CAPTULO VII
     O MENINO NO ESPELHO

       CAPTULO VIII
  MINHA GLRIA DE CAMPEO

         CAPTULO IX
 NAS GARRAS DO PRIMEIRO AMOR

         CAPTULO X
A LIBERTAO DOS PASSARINHOS

          EPLOGO
     O HOMEM E O MENINO
Dedicado  minha irm Berenice
                                                        PRLOGO


O MENINO E O HOMEM



Q       UANDO chovia, no meu tempo de menino, a casa virava um festival de
        goteiras. Eram pingos do teto ensopando o soalho de todas as salas e
        quartos. Seguia-se um corre-corre dos diabos, todo mundo levando e
trazendo baldes, bacias, panelas, penicos e o que mais houvesse para aparar a
gua que caa e para que os vazamentos no se transformassem numa inundao.
Os mais velhos ficavam aborrecidos, eu no entendia a razo: aquilo era uma
distrao das mais excitantes.
       E me divertia a valer quando uma nova goteira aparecia, o pessoal
correndo para l e para c, e esvaziando as vasilhas que transbordavam. Os
diferentes rudos das gotas d'gua retinindo no vasilhame, acompanhados do
som oco dos passos em atropelo nas tbuas largas do cho, formavam uma
alegre melodia, s vezes enriquecida pelas sonoras pancadas do relgio de
parede dando horas.
       Passado o temporal, meu pai subia ao forro da casa pelo alapo, o mesmo
que usvamos como entrada para a reunio da nossa sociedade secreta. Depois
de examinar o telhado, descia, aborrecido. No conseguia descobrir sequer uma
telha quebrada, por onde pudesse penetrar tanta gua da chuva, como
invariavelmente acontecia. Um mistrio a mais, naquela casa cheia de mistrios.
       O maior, porm, ainda estava por se manifestar.


NAQUELE dia, assim que a chuva passou, fui como sempre brincar no quintal.
Descalo, pouco me incomodando com a lama em que meus ps se afundavam,
gostava de abrir regos para que as poas d'gua, como pequeninos lagos,
escorressem pelo declive do terreiro, formando o que para mim era um
caudaloso rio. E me distraa fazendo descer por ele barquinhos de papel, que
eram grandes caravelas de piratas.
       Desta vez, o que me distraiu a ateno foi uma fila de formigas a caminho
do formigueiro, l perto do bambuzal, e que o rio aberto por mim havia
interrompido. As formiguinhas iam at a margem e, atarantadas, ficavam por ali
procurando um jeito de atravessar. Encostavam a cabea umas nas outras,
trocando idias, iam e vinham, sem saber o que fazer. Algumas acabavam to
desorientadas com o imprevisto obstculo  sua frente que recuavam caminho,
atropelando as que vinham atrs e estabelecendo na fila a maior confuso.
       Do outro lado, entre as que j haviam passado, reinava tambm certa
confuso. Enquanto as que iam mais  frente prosseguiam a caminhada at o
formigueiro, sem perceber o que acontecia  retaguarda, as ainda prximas do
rio ficavam indecisas, indo e vindo por ali, junto  margem, pintando uma forma
qualquer de ajudar as outras a atravessar.
       Resolvi colaborar, apelando para os meus conhecimentos de engenharia.
Em poucos instantes constru uma ponte com um pedao de bambu aberto ao
meio, e procurei orientar para ela, com um pauzinho, a fila de formigas.
       Estava empenhado nisso, quando senti que havia algum em p atrs de
mim. Uma voz de homem, que soou familiar aos meus ouvidos, perguntou:
       -- Que  que voc est fazendo?
       Sem me voltar, to entretido estava com as formigas, expliquei o que se
passava. Logo consegui restabelecer o trfego delas, recompondo a fila atravs
da ponte. O homem se agachou a meu lado, dizendo que vrias formigas
seguiam por um caminho, uma na frente de duas, uma atrs de duas, uma no
meio de duas. E perguntou:
       -- Quantas formigas eram?
       Pensei um pouco, fazendo clculos. Naquele tempo eu achava que era
bom em aritmtica: uma na frente de duas faziam trs; uma atrs de duas eram
mais trs; uma no meio de duas, mais trs.
       -- Nove! -- exclamei, triunfante.
       Ele comeou a rir e sacudiu a cabea, dizendo que no: eram apenas trs,
pois formiga s anda em fila, uma atrs da outra.
       Ento perguntei a ele o que  que cai em p e corre deitado.
       -- Cobra? -- ele arriscou, enrugando a testa, intrigado.
       Foi a minha vez de achar graa:
       -- Que cobra que nada!  a chuva -- e comecei a rir tambm.
       -- Voc sabe o que  que caindo no cho no quebra e caindo n'gua
quebra?
       -- Sei: papel.
       Gostei daquele homem: ele sabia uma poro de coisas que eu tambm
sabia. Ficamos conversando um tempo, sentados na beirada da caixa de areia,
como dois amigos, embora ele fosse cinqenta anos mais velho do que eu,
segundo me disse. No parecia. Eu tambm lhe contei uma poro de coisas.
Falei na minha galinha Fernanda, nos milagres que um dia andei fazendo, e de
como aprendi a voar como os pssaros, e a minha aventura de escoteiro perdido
na selva, as espionagens e investigaes da sociedade secreta Olho de Gato, o
ssia que retirei do espelho, o Birica, valento da minha escola, o dia em que me
sagrei campeo de futebol, o meu primeiro amor, o capito Patifaria, a
passarinhada que Mariana e eu soltamos. Pena que minha amiga no estivesse
por ali, para que ele a conhecesse. Levei-o a ver o Godofredo em seu poleiro:
       -- Fernando! -- berrou o papagaio, imitando mame: -- Vem pra dentro,
menino! Olha o sereno!
       Hindemburgo apareceu correndo, a agitar o rabo. Para surpresa minha,
nem o homem ficou com medo do cachorro, nem este o estranhou; parecia
feliz, at lambeu-lhe a mo. Depois mostrei-lhe o Pastoff no fundo do quintal,
mas o coelho no queria saber de ns, ocupado em roer uma folha de couve.
       O homem disse que tinha de ir embora -- antes queria me ensinar uma
coisa muito importante:
       -- Voc quer conhecer o segredo de ser um menino feliz para o resto da
sua vida?
       -- Quero -- respondi.
       O segredo se resumia em trs palavras, que ele pronunciou com
intensidade, mos nos meus ombros e olhos nos meus olhos:
       -- Pense nos outros.
       Na hora achei esse segredo meio sem graa. S bem mais tarde vim a
entender o conselho que tantas vezes na vida deixei de cumprir. Mas que sempre
deu certo quando me lembrei de segui-lo, fazendo-me feliz como um menino.
       O homem se curvou para me beijar na testa, se despedindo:
       -- Quem  voc? -- perguntei ainda.
       Ele se limitou a sorrir, depois disse adeus com um aceno e foi-se embora
para sempre.
                                                      CAPITULO I



GALINHA AO MOLHO PARDO



A
         O CHEGAR da escola, dei com a, novidade: uma galinha no quintal.
         O quintal de nossa casa era grande, mas no tinha galinheiro, como
         quase toda casa de Belo Horizonte naquele tempo. Tinha era uma
poro de rvores: um p de manga sapatinho, outro de manga corao-de-boi,
um p de gabiroba, um de goiaba branca, outro de goiaba vermelha, um p de
abacate e at um p de fruta-de-conde. No fundo, junto do muro, um bambuzal.
De um lado, o barraco com o quarto da Alzira cozinheira e um quartinho de
despejo. Do outro lado, uma caixa de madeira grande como um canteiro, cheia
de areia que papai botou l para ns brincarmos. Eu brincava de fazer tnel, de
guerra com soldadinhos de chumbo, trincheira e tudo. Deixei de brincar ali
quando comearam a aparecer na areia uns montinhos fedorentos de coc de
gato. Os gatos quase nunca apareciam, a no ser de noite, quando a gente estava
dormindo. De dia se escondiam pelos telhados. Tinham medo de Hindemburgo,
que era mesmo de meter medo, um pastor alemo deste tamanho. No sabiam
que Hindemburgo  que tinha medo deles. Cachorro com medo de gato: coisa
que nunca se viu. Quando via um gato, Hindemburgo metia o rabo entre as
pernas e fugia correndo.
       Pois foi no quintal que eu vi a galinha, toda folgada, ciscando na caixa de
areia. Havia sido comprada por minha me para o almoo de domingo: Dr.
Junqueira ia almoar em casa e ela resolveu fazer galinha ao molho pardo.
       Eu j tinha visto a Alzira matar galinha, uma coisa horrvel. Agarrava a
coitada pelo pescoo, agachava, apertava o corpo dela entre os joelhos, torcia
com a mo esquerda a cabecinha assim para um lado, e com a direita, zapt!
passava o faco afiado, abrindo um talho no gog. O sangue esguichava longe.
Ela aparava logo o esguicho com uma bacia, deixando que escorresse ali dentro
at acabar. E a bichinha ainda viva, estrebuchando nas mos da malvada.
       Como se fosse a coisa mais natural deste mundo, a Alzira me contou o
que ia acontecer com a nova galinha.
      Revoltado, resolvi salv-la.
      Eu sabia que o Dr. Junqueira era importante, meu pai dependia dele para
uns negcios. Pois no que dependesse de mim, no domingo ele ia poder comer
de tudo, menos galinha ao molho pardo.
      Era uma galinha branca e gorda, que no me deu muito trabalho para
pegar. Foi s correr atrs dela um pouco, ficou logo cansada. Agachou-se no
canto do muro, me olhou de lado como as galinhas olham e se deixou apanhar.




      No sei se percebeu que eu no ia lhe fazer mal. Pelo contrrio, eu
pretendia salvar a sua vida. O certo  que em poucos minutos ficou minha
amiga, no fugiu mais de mim.
      -- O seu nome  Fernanda -- falei ento. E joguei um pouquinho de gua
na cabecinha dela: -- Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Esprito Santo,
amm.
      Assim que escureceu, ela se empoleirou muito fagueira num galho da
goiabeira, enfiou a cabea debaixo da asa e dormiu. Ento eu entendi por que
dizem que quem vai para a cama cedo dorme com as galinhas.


NO DIA seguinte era sbado, no tinha aula. Passei o tempo inteiro brincando
com ela. Levei horas lhe ensinando a responder sim e no com a cabea:
     -- Voc sabe o que eles esto querendo fazer com voc, Fernanda?
     Ela mexia a cabecinha para os lados, dizendo que no.
       -- Pois nem queira saber. Cuidado com a Alzira, aquela magrela de
pernas compridas.  a nossa cozinheira. Ruim que s ela. No deixa a Alzira
nem chegar perto de voc.
       Ela mexia com a cabecinha para cima e para baixo, dizendo que sim.
       -- Esto querendo matar voc para comer. Com molho pardo.
       Os olhinhos dela piscaram de susto. O corpo estremeceu e ali mesmo, na
hora, ela botou um ovo. De puro medo.
       -- Mas eu no vou deixar -- procurei tranqiliz-la, apanhando o ovo
com cuidado, para enterrar na areia depois e ver se nascia pinto.
       E acrescentei:
       -- Hoje no precisa de ter medo, que o perigo todo vai ser amanh.
       Eu sabia que para fazer galinha ao molho pardo tinham de matar quase na
hora, por causa do sangue, que era aproveitado para preparar o molho.
       -- Vou esconder voc num lugar que ningum  capaz de descobrir.
       Junto do tanque de lavar roupa costumava ficar uma bacia grande de
enxaguar. A Maria lavadeira s ia voltar na segunda-feira. Antes disso ningum
ia mexer naquela bacia. Assim que escureceu, escondi a Fernanda debaixo dela.
Fiquei com pena de deixar a coitada ali sozinha:
       -- Voc se importa de ficar ai debaixo at passar o perigo?
       Ela fez com a cabea que no.
       -- Ento fica bem quietinha e no canta nem cacareja nem nada.
Principalmente se ouvir algum andando aqui fora.
       Ela fez com a cabea que sim.
       -- Amanh, assim que puder eu volto. Dorme bem, Fernanda.
       Naquela noite, para que ningum desconfiasse, jantei mais cedo e fui
dormir com as galinhas.


NA MANH de domingo me levantei bem cedo e fui dar uma espiada na
Fernanda. Encontrei a pobrezinha mais morta do que viva debaixo da bacia.
Mais um pouco e nem ia ser preciso a Alzira usar o faco. No sei se por falta de
ar, por causa da fome, da sede ou de tudo isto junto: ela estava deitada de bico
aberto e os olhos meio fechados de quem j desistiu de viver.
gua era fcil, eu trouxe um pouco numa tigelinha, despejei pelo bico
adentro e ela se reanimou.
       Mas como arranjar comida sem chamar a ateno de ningum? Ainda no
tinham notado a falta da galinha, nem mesmo pensado em trazer alguma coisa
para ela comer. Que diferena fazia? Se ia ser comida naquele dia mesmo?
       O jeito foi furtar um pouco do milho do Godofredo, que no seu poleiro,
correntinha presa no p, acompanhava tudo com ar intrigado. A galinha come
milho e o papagaio leva a fama! -- ele parecia dizer. No que tirei o milho,
disparou a berrar:
       -- Socorro! Socorro! Pega ladro!
       O diabo do papagaio no gostava de mim, eu sabia. Era do Toninho, meu
irmo, a quem dava o p, todo lampeiro, e ainda abaixava a cabecinha para um
cafun. Ai de mim, se quisesse fazer o mesmo: me pespegava uma bicada na
mo.
      -- Cala a boca, Godofredo.
      -- Cala a boca j morreu! Quem manda aqui sou eu!
      Joguei na cara dele o resto da gua da tigelinha:
      -- Toma, seu desgraado, para voc aprender.
      -- Socorro! Socorro! Pega ladro! -- berrava ele, batendo as asas.
      Tamanho foi o escarcu que o Godofredo aprontou, que acabou caindo do
poleiro e fitou de pendurado pelo p. Foi o tempo de esconder a Fernanda
debaixo da bacia e me escafeder correndo pelo poro adentro. A Alzira j batia
os chinelos escada abaixo com suas pernas compridas, faca na mo,  procura da
galinha. Ao ouvir aquele berreiro, veio ver o que estava acontecendo:
      -- Que  que esse bicho tem? No fala nada que preste e de repente
destampa essa gritaria toda!
      O papagaio tentava com muito esforo voltar ao poleiro, subindo com a
ajuda do bico pela prpria correntinha e se balanando de um lado para outro.
Olhava com raiva para a cozinheira, como a dizer: essa miservel nem para me
dar uma mozinha. Ela tambm no achava l muita graa no Godofredo. Dizia
que ele no servia para nada, s sabia sujar de titica o cho todo debaixo do
poleiro, e ela  que tinha de limpar.
      -- Que  que voc quer, coisa ruim? Quem  que  ladro?
      O bicho tinha conseguido com muita dificuldade empoleirar-se de novo,
depois de despencar algumas vezes.
      Ofegante, entortou a cabecinha e encarou a cozinheira:
      -- Sua galinha! Sua galinha!

       O Godofredo j havia xingado a Alzira de nomes feios, de modo que ela
achou desaforo ser chamada de galinha. E respondeu no mesmo tom, brandindo
o faco para o papagaio:
       -- Galinha  voc! Galinha verde!
       L do fundo escuro do poro, onde tinha ido me esconder, vi a Alzira
olhar ao redor:
       -- Por falar nisso, onde  que se meteu a galinha?
       Apavorado, ouvi o Godofredo gritar, com sua voz de currupaco-papaco:
       -- Na bacia! Na bacia!
       Alm do mais, era delator, o miservel. Dedo-duro, traidor, entregava ao
carrasco o seu prprio semelhante (ou quase). Antes que fosse tarde, sa do meu
esconderijo l no poro, como quem no quer nada, vim me sentar na prpria
bacia.
       -- Uai, que  que voc estava fazendo ali escondido, Fernando?
       -- Nada no...
       A cozinheira me olhava com ar de suspeita:
      -- Boa coisa  que no h de ser. Alguma esse menino anda arrumando,
com esse ar de cachorro que quebrou a panela.
      -- Na bacia! Na bacia! -- o Godofredo berrava.
      -- Cala essa boca, seu filhote de urubu! -- gritei.
      -- Na bacia! Na bacia! -- ele continuava.
      -- Que  que esse tagarela est falando? -- perguntou a Alzira.
      -- Est te chamando de nabacinha.
      -- Nabacinha? Que quer dizer isso?
      -- Quer dizer vagabunda -- respondi, a cara mais sria deste mundo.
      A Alzira arregalou os olhos, ergueu no ar o faco:
      -- Vagabunda? Est me chamando de vagabunda? Nabacinho  voc, seu
bicho ordinrio! No sei onde estou que no te corto o pescoo, asso no espeto e
como, ouviu? E ainda chupo os ossinhos um por um!
      Ela correu de novo os olhos em torno:
      -- Por falar em comer: quede a galinha? J est na hora de fazer o
almoo. Onde  que ela se meteu?
      -- No sei...
      -- Voc no estava brincando com ela ontem, menino?
      -- Isso foi ontem. Hoje eu no vi ela ainda
      -- Ser que fugiu? Ou algum roubou?
      E ela olhou para o papagaio, cismada agora com o silncio dele:
      -- Vai ver que  por isso que esse nabacinho de uma figa estava gritando
pega ladro. Algum ladro de galinha.
      Agarrei a idia no ar, era a salvao:
      -- Isso mesmo! Quando eu estava ali no quintal vi um homem passar
correndo... Levava uma coisa escondida embaixo do palet. S podia ser a
galinha.
      A Alzira no parecia acreditar muito na histria. Pelo contrrio, ficou
mais desconfiada. E naquele exato momento a Fernanda resolve se mexer
debaixo da bacia, fazendo um barulhinho na lata com o bico e com os ps.
Continuei sentado e, para disfarar, comecei a bater com os dedos na bacia como
se tocasse tambor. A galinha deve ter entendido, pois logo ficou quieta. Mas a
Alzira continuava com ar de desconfiana:
      -- Esse menino est com um jeito muito velhaco. Sei no... Alguma ele
andou fazendo.
      E saiu pelo quintal,  procura da galinha, olhando aqui e ali: nos galhos
das rvores, atrs do barraco, no meio dos bambus. Depois foi contar para
mame que a galinha havia sumido.
      Fui atrs, para o que desse e viesse. Escutei tudo. Mame torcia as mos:
      -- E agora, como vai ser? Como  que ela foi sumir assim, sem mais nem
menos?
       -- Sei l -- respondeu a Alzira: -- No acredito que tenham roubado,
como diz o Fernando. Vai ver que saiu voando e pulou o muro. Bem que eu
pensei em cortar as asas dela e me esqueci. Agora  tarde.
       E a cozinheira me apontou:
       -- Para mim, a gente anda precisando de cortar as asas  desse menino.
       -- Est quase na hora do almoo -- disse minha me: -- O Dr. Junqueira
est para chegar de uma hora para outra, e como  que a gente vai fazer sem a
galinha? O Domingos vai ficar aborrecido.
       Dali a pouco era o meu pai quem chegava da rua, trazendo o jornal de
domingo debaixo do brao. Quando mame lhe deu a triste notcia, para surpresa
minha e dela, ele no se aborreceu:
       -- Faz outra coisa. Macarro, por exemplo. O Dr. Junqueira  bem capaz
de gostar de macarro.
       E foi ler o jornal na varanda.
       Filho de italiano, quem gostava de macarro era ele. E da macarronada
que a Alzira fazia todo mundo gostava.
       Pois o Dr. Junqueira no s gostou, como repetiu duas vezes, para grande
satisfao de mame. Papai abriu uma garrafa de vinho daquelas de cestinha de
palha, e os dois a esvaziaram, depois de dar um pouquinho para mim e meus
irmos, com gua e acar. Guardanapo enfiado no colarinho, o Dr. Junqueira
limpou os bigodes, satisfeito:
       -- Ainda bem que era essa macarronada to boa. Eu estava com medo que
fosse galinha. Se tem uma coisa que eu detesto  galinha. Principalmente ao
molho pardo.
NEM POR ISSO senti que minha amiga Fernanda no estava mais condenada 
morte. Mesmo porque, meu pai gostava tambm de galinha, com ou sem o Dr.
Junqueira. Por outro lado, ela no podia ficar escondida o resto da vida (eu no
tinha a menor idia de quanto tempo vivia uma galinha). E na manh seguinte a
Maria viria lavar roupa, ia descobrir a Fernanda encolhida debaixo da bacia.
       Depois que o almoo terminou e o Dr. Junqueira se despediu, fui l perto
do tanque fazer uma visitinha a ela, resolvido a ganhar tempo:
       -- Voc hoje ainda vai dormir a, mas amanh eu te solto, est bem?
       Ela fez que sim com a cabea. Deixei gua na tigelinha e mais um pouco
de milho furtado de novo do Godofredo. Antes que o diabo do papagaio pusesse
a boca no mundo eu avisei:
       -- Se voc falar alguma coisa, mando a Alzira fazer papagaio ao molho
pardo para o jantar.
       Ele fez cara de quem comeu e no gostou, mas ficou calado, vai ver que
pensando um jeito de se vingar.
       De manhzinha, antes que a Maria lavadeira chegasse, fui at l, levantei
a bacia e peguei a Fernanda, procurei mame com ela debaixo do brao:
       -- Olha s quem est aqui. Mame se espantou:
       -- Uai, ela no tinha sumido? Onde  que voc encontrou essa galinha,
Fernando?
       De repente seus olhos se apertaram num jeito multo dela, quando entendia
as coisas: havia entendido tudo. Antes que me passasse um pito, eu avisei:
       -- Se tiverem de matar a minha amiga, me matem primeiro.
       Mame achou graa quando soube que ela se chamava Fernanda e
resolveu no se importar com o que eu tinha feito, pelo contrrio: deixou que a
galinha passasse a ser um de meus brinquedos. S proibiu que eu a levasse para
dentro de casa. Fernanda me seguia os passos por toda parte, como um
cachorrinho.
       E ela continuou minha amiga, at morrer de velha, no sei quanto tempo
mais tarde.
       S sei que alguns dias depois do almoo do Dr. Junqueira, mame
comprou um frango.
       -- Esse vai se chamar Alberto -- eu disse logo.
       -- Pois sim -- disse minha me, e mandou que a Alzira tomasse conta do
frango.
       No dia seguinte mesmo, no almoo, comemos o Alberto. Ao molho pardo.
                                                   CAPITULO II

O CANIVETINHO VERMELHO



T
         ODA semana eu ganhava de minha me dois mil-ris para ir ao cinema.
         Dava para pagar a entrada, o bonde na ida e na volta, e ainda sobrava
         para comprar um picol (ou um saco de pipocas).
       Eu costumava assistir aos domingos, na matin do cinema Avenida, a
animada sesso de bangue-bangue. A molecada vibrava assim que as luzes se
apagavam, preparando-se para acompanhar as cenas mais emocionantes, com
uma gritaria de fazer o cinema vir abaixo.
       Naquele dia, quando entrei, a fita j havia comeado. No vi os letreiros
do princpio, de modo que no cheguei a saber nem como se chamava. Estranhei
o silncio ali dentro, como se no houvesse ningum na platia. Depois de me
ajeitar no escuro, procurei prestar ateno na tela.
       No sei por que diabo passavam naquele dia um filme diferente, sem
bandido nem mocinho, tiroteios ou perseguies a cavalo. Era uma histria
esquisita, meio difcil de entender, passada na Inglaterra: a de um homem que
fazia milagres.
       Estavam ele e mais dois companheiros num bar, discutindo sobre a
existncia ou no de milagres. Depois que os outros foram embora, o homem, j
meio tonto de tanta cerveja que havia tomado, levanta a cabea tombada na
mesa e fala, apontando o lustre do bar:
       -- Milagre para mim  se aquele lustre virasse de cabea para baixo.
       Na mesma hora o lustre vira de cabea para baixo.
       Ele fica impressionado com aquilo, sai do bar e vai cambaleando pela rua,
apoiado na sua bengala. De repente a bengala fica presa pela ponta num ralo de
bueiro, em p sem que ele a segure, como se fosse uma rvore. Ento ele ordena,
a rir:
       -- Pois que vire logo uma rvore!
       Na mesma hora a bengala se transforma numa rvore, cada vez mais alta,
cheia de galhos que crescem para cima e para os lados. Ele ri s gargalhadas do
milagre que acabou de fazer, quando surge um guarda no maior espanto:
       -- Que rvore  essa a, que no tinha antes? Ao ver o homem, acha
suspeito o jeito dele, resolve prend-lo porque parece embriagado. Mas o
homem se livra do guarda com um safano, falando:
       -- Vai para o inferno!
       O guarda sobe feito um foguete em direo ao inferno (apesar do inferno,
naturalmente, ser para baixo). Ele mal tem tempo de corrigir, com pena do
guarda:
       -- Para o inferno no! Para a Califrnia!
       A o filme mostra uma confuso dos diabos no trnsito de uma cidade da
Califrnia, nos Estados Unidos, acho que Los Angeles. Os guardas americanos
abrem caminho para ver o que est acontecendo, e encontram um policial ingls
solene e empertigado, farda preta e capacete alto, que tenta comandar o trfego,
perdido no meio dos automveis.
       No dia seguinte o homem, que trabalha numa loja de fazendas, recebe
ordem do patro para que no v embora enquanto no arrumar tudo direitinho.
Ele passou o dia desenrolando peas de fazenda para mostrar s freguesas, e
agora esto todas as peas espalhadas, na maior desarrumao. Sozinho na loja,
cansado, doido para ir embora, olha desanimado ao redor, quando se lembra do
poder de fazer milagres.
       Foi s bater palmas mandando que tudo voltasse ao seu lugar, e as peas
de fazenda comeam a se enrolar sozinhas, voando at encontrar seus lugares
nas prateleiras. E a loja fica arrumadinha.
       Depois de mil e uma peripcias, o homem que faz milagres resolve usar o
seu poder para consertar o mundo logo de uma vez, acabar com as guerras e as
injustias, fazer com que todos os pases vivam em paz. Ento convoca para
uma reunio os reis, presidentes, ministros, generais, todos os que mandam nos
povos do mundo inteiro. Bastava pensar nesse ou naquele, e cada um ia
aparecendo.
       Quando esto todos reunidos, o homem que faz milagres ordena que eles
acabem com os desentendimentos de uma vez por todas, faam as pazes e no
briguem mais.
       Mas eles no esto de acordo com aquilo, comeam a discutir, ningum se
entende, e o homem acaba perdendo a pacincia:
       -- J que vocs no se emendam -- grita ele -- ento que este mundo
acabe de uma vez!
       No que fala isto, o mundo se abre como se tivesse explodido. Todos saem
voando pelos ares, entre casas, automveis, rvores, vacas e tudo mais. Rolando
no espao, desesperado, o homem ainda tem tempo de pedir:
       -- Que tudo volte a ser como era antes do primeiro milagre!
       Na mesma hora ele se v no bar, levantando a cabea da mesa e olhando
para o lustre:
       -- Milagre para mim  se aquele lustre virasse de cabea para baixo.
       O lustre continua imvel, sem se mexer. E o filme acaba.


FUI para casa impressionado com a histria dos milagres. De noite, na cama,
continuei pensando no filme, sem conseguir dormir. O que me intrigava era a
espcie de milagres que o homem pedia: tudo bobagem, a bengala virar rvore,
salvar o mundo, coisas assim. Comigo, seria diferente. Eu haveria de pedir
outros milagres. Como, por exemplo...
      -- Apaga essa luz que eu quero dormir.
      Era o Toninho. Dormamos no mesmo quarto. Mais velho do que eu, j
estudava no turno da manh, tinha de acordar cedo. Era assim quase toda noite:
eu gostava de ler antes de dormir, e ele pedindo que apagasse a luz. O boto
ficava perto da minha cama.
      E ento aconteceu.
      A luz se apagou sozinha, quando olhei para ela como fez o homem no
filme e experimentei ordenar que se apagasse. No precisei pronunciar uma
nica palavra: foi s pensar e ela se apagou.
      Toninho, virado para o outro lado, no chegou a perceber nada.
Certamente achou que eu me levantei e fui at a parede apagar a luz, como fazia
sempre.
       Fiquei deslumbrado: quer dizer que eu tambm podia fazer milagres! Para
tirar qualquer dvida, ordenei mentalmente que a luz se acendesse de novo. li
ela se acendeu.
       Que brincadeira  essa? -- exclamou o Toninho, virando-se na cama, os
olhos cheios de sono: -- Fica acendendo e apagando a luz! Apaga de uma vez!
       Para que ele no desconfiasse, tornei a apagar a luz, desta vez por mim
mesmo, sem milagre nenhum.
       Nem voltei para a cama. De p, no escuro, mandei que a noite se acabasse
e o dia nascesse de uma vez. E vi pela janela o cu comear a clarear
rapidamente, o sol subindo no horizonte como um balo. Toninho se ergueu na
cama, esfregando os olhos:
       -- Puxa, como eu dormi! J deve ser tarde, vai ver que perdi a hora.
       E vestiu correndo o uniforme do colgio.
       Depois de me vestir tambm, sa para o quintal, disposto a iniciar a minha
vida de milagres. O primeiro que fiz foi ao dar com a Fernanda:
       -- Gosto tanto de voc, Fernanda, que vou fazer aparecer uma poro de
galinhas iguais a voc aqui no quintal.
       No mesmo instante o quintal se encheu de galinhas, todas parecidas, a
ponto de eu no saber qual era a Fernanda. Eram todas do mesmo tamanho e da
mesma cor. Naquele momento a Alzira cozinheira surgiu na escada da cozinha
para bisbilhotar, como fazia sempre, e depois ir contar para mame. Esbugalhou
os olhos, levantou os braos e quase caiu para trs, ao ver tanta galinha.
Embarafustou-se pela casa adentro, a gritar:
       -- Dona Odete! Aode, dona Odete! Vem ver uma coisa!
       Sem perda de tempo, mandei que as galinhas sumissem, s ficasse a
Fernanda. Quando a Alzira voltou, acompanhada de mame, s havia uma
galinha ciscando distrada na caixa de areia, como de hbito.
       -- Onde  que voc viu tanta galinha, Alzira? Ficou maluca? -- e minha
me sorriu, balanando a cabea.
       A Alzira olhava o quintal, com cara mesmo de maluca:
       -- Eram mais de mil! Agorinha mesmo, no faz nem um minuto! Eu vi!
Juro pelo que h de mais sagrado!
       Resolvi pensar um pouco, antes de fazer outras proezas. O meu poder
tinha de ser bem aproveitado. Eu no sabia se ia us-lo o tempo que quisesse ou
s para certo nmero de milagres. O jeito era usar o prprio poder para ficar
sabendo.
       -- Quantos milagres eu posso fazer? Dura o tempo todo, esse poder, ou
acaba de uma hora para outra?
       Ningum me respondeu. No havia ningum mesmo para responder, a no
ser o Godofredo, e que  que um papagaio entende de milagres? Eu no sabia
nem mesmo a quem me dirigir. Se fosse Deus que tivesse me dado aquele poder,
Ele tambm no respondeu. Com certeza no estava querendo se comprometer.
      -- Ento est bem -- conclu: -- Vamos tirar o melhor proveito disso.


UM DOS sonhos da minha vida era ter em casa uma piscina. Tinha aprendido a
nadar, j havia disputado mesmo uma competio na piscina do Minas Tnis
Clube, categoria de petiz, pretendia me tornar campeo, nadando no mnimo to
bem como Tarz. Gostava tambm de mergulhar, embora achasse que o flego
mal dava para a gente se distrair debaixo d'gua, no mais que um minuto e
pouco. Agora, poderia fazer o milagre de ficar sem respirar o tempo que
quisesse.
       E mais: sempre imaginei uma piscina que tivesse numa de suas paredes
um tnel para, atravs dele, chegar a um esconderijo que fosse s meu, um lugar
que s eu soubesse existir. Uma espcie de salo subterrneo sem outra entrada
que no fosse pelo tnel debaixo d'gua. L dentro eu teria todas as coisas de
que mais gostava: meus brinquedos, meus livros, meu futebol de boto, minhas
bolas de gude, minha coleo de selos, de figurinhas, de marcas de cigarro.
Tudo ali era automtico: bastava apertar um boto e se abria uma janelinha na
parede, aparecia um cachorro-quente; vrias torneirinhas comandadas por boto
deixavam escorrer groselha, soda-limonada, guaran, laranjada e tudo quanto 
espcie de refrescos. Haveria a qualidade e a quantidade que eu quisesse de
sorvete, doce, bala, bombom. Puxando uma alavanca, eu fazia o teto se abrir
numa espcie de clarabia, por onde podia ver o cu e at empinar um papagaio.
Teria um telescpio tambm, dos mais possantes do mundo, para ver a lua e as
estrelas. E tudo que eu quisesse.
       Era o que eu imaginava na cama, antes de dormir, sem acreditar que um
dia tudo viesse a ser realidade. Ali estava a oportunidade, e no perdi tempo:
mandei que a caixa de areia virasse uma piscina, com tudo o que eu tinha
imaginado.
       O susto que a Fernanda levou quase me mata de rir: a coitada mal teve
tempo de saltar para a terra, quando viu a areia em que pisava se converter na
gua azul de uma bela piscina.
       Tirei a roupa e pulei de cabea.
       Logo encontrei o tnel, que era curto como eu tinha previsto, uns trs
metros de comprimento. Foi fcil atravess-lo debaixo d'gua. Uma curva para
cima, como eu tinha imaginado, levou-me  sada, que era uma espcie de poo
no cho, com uma escadinha de metal, dessas que toda piscina tem. Encontrei
toalhas para me enxugar e um roupo para vestir. Eu ria de felicidade: tudo o
que eu queria ali estava. Aquele era o meu mundo, o meu domnio, a que s eu
tinha acesso. Eu me sentia um verdadeiro rei.
       Tinha de tomar cuidado para que no descobrissem o meu segredo.
Ningum acredita em milagres. E eu no sabia como usar o meu poder para no
deixar que ficassem sabendo. Ao voltar para o quintal atravs da piscina, vi no
alto da escada da cozinha, a Alzira estatelada de espanto. Ao dar por mim, ela
entrou correndo pela casa adentro:
       -- Socorro, dona Odete! Deus nos acuda! Vem ver uma coisa!
       Mame veio com ela e, como da outra vez, no viu nada: eu j havia
mandado que a piscina voltasse a ser uma simples caixa cheia de areia.
       -- Essa mulher no est boa da bola -- mame comentou, resignada: --
Onde  que voc viu piscina?
       A Alzira agitava os braos para o cu, aparvalhada:
       -- Sou capaz de jurar! Sou capaz de jurar!
       Passei o dia inteiro experimentando com cautela o meu poder. Ordenei
que o dia se convertesse em feriado, para no precisar de ir  escola. Em pouco
era o Toninho que regressava do colgio, todo satisfeito:
       -- Suspenderam as aulas. Hoje  feriado.
       -- Feriado como? -- estranhou minha me.
       -- Sei l -- disse ele: -- Dia santo, acho.
       -- Dia santo? -- mame estranhou mais ainda: -- Que santo  esse, que
eu no estou sabendo?
       -- Dia de So Nunca, mame -- informei, satisfeito.
       E fui para o quarto fazer a lista das coisas que eu queria que
acontecessem, para experimentar uma por uma. A primeira delas...
       BEM, a  que estava o problema, tantas foram as idias que me vieram ao
mesmo tempo. Uma, por exemplo, que foi sempre um grande sonho meu: ficar
invisvel. Mas, pensando bem, para que eu queria ficar invisvel? Que vantagem
havia no fato de no ser visto pelos outros? A nica que me ocorreu foi a de
entrar no cinema sem pagar. Mas corria o risco de algum se sentar em cima de
mim, pensando que a poltrona estivesse vazia.
       Em todo caso, fui ao espelho e falei para a minha imagem:
       -- Fique invisvel!
       O susto da minha vida: na mesma hora vi a minha roupa vazia, flutuando
no ar, os meus sapatos se mexendo sozinhos, as calas sem minhas pernas
dentro, as mangas da blusa sem braos, a gola sem pescoo e eu sem cabea. Era
mesmo para assustar qualquer um! J ia tirar a roupa toda para que
desaparecesse at a forma do meu corpo, mas achei mais prtico fazer a roupa se
tornar invisvel tambm. No seria nada engraado se tivesse de voltar a ficar
visvel e aparecesse pelado na vista de todo mundo.
       Senti uma grande aflio quando no vi mais nada diante do espelho. Tive
que me apalpar para saber que ainda estava ali.
       Sa do quarto e fui ver o que acontecia. Passei pela minha me na sala e
ela olhou atravs de mim como se eu no existisse. No resisti e chamei-a:
       -- Mame...
       Ela olhou em direo  minha voz:
       -- Fernando? Onde  que voc est?
       -- Aqui... -- e fui me colocar s suas costas. Ela se voltou na cadeira:
       -- Aqui onde? Por que voc est se escondendo?
       Ao ouvir de novo minha voz, vinda agora de outra direo, ela se
levantou, desnorteada, deu uma volta completa com o corpo, inspecionando a
sala inteira. Depois se curvou para olhar debaixo da mesa:
       -- Onde  que se meteu esse menino, minha Nossa Senhora.
       Embarafustei-me rindo pelo corredor adentro, fui at a cozinha. Dei com a
Alzira de costas para mim, diante do fogo. Fiquei rente dela, e comecei a
destampar as panelas, para ver o que tinha dentro.
      Nem cheguei a ver: ela soltou um berro e pulou para trs, ao dar com as
tampas se erguendo no ar. Ento peguei numa panela pelo cabo e a levei at a
mesinha ao lado da pia. Ela acompanhou com olhos arregalados a panela no ar,
botou a boca no mundo:
      -- Te esconjuro! Virgem Santssima, tem d de mim! Essa casa t mal-
assombrada!
      E disparou em direo  porta dos fundos, levando um trambolho ao
esbarrar de cheio em mim:
      -- Ui, que  isso? Ai, meu santo, tem demnio aqui pra todo lado!
      Num segundo ela despencava escada abaixo, indo se refugiar no seu
quarto. Refeito do susto que levei eu prprio, quando ela quase me atirou ao
cho, fui atrs. Por pouco no atropelo a Fernanda, que estava no meio do
quintal, e no se afastou para me dar passagem. Pela janelinha do barraco vi a
cozinheira ajoelhada no cho diante de um santinho pregado na parede, fazendo
o nome-do-padre, um atrs do outro.
      Antes de reaparecer, resolvi ainda passar um susto no Godofredo. Cheguei
bem pertinho do poleiro e o papagaio ficou com aquele olhar parado assuntando
o ar, como se tivesse ouvido algum barulhinho. Quando ia cutuc-lo com o
dedo, para derrub-lo do poleiro, o miservel virou rpido a cabea e me deu
uma bicada na mo. Quem se assustou fui eu:
      -- Desgraado, voc me paga por essa papagaiada.
      Chegou a sair sangue. Como  que ele teria me visto?
      S quando voltei ao meu quarto, antes de me tornar visvel,  que reparei
que o dedo ficou sujo de fuligem quando mexi nas panelas.


PENSEI em experimentar outros milagres: ler o pensamento das pessoas,
adivinhar o futuro, voltar ao passado, enxergar atravs das paredes, diminuir ou
aumentar de tamanho como Alice no Pais das Maravilhas, ouvir de longe o que
os outros falavam, ver  distncia como um binculo, enxergar micrbios como
num microscpio, ter a fora do Super-Homem, e outras coisas fantsticas que
sempre senti vontade de fazer. Mas tudo isso agora me parecia bobagem. Que
adiantava saber o que os outros pensavam, ou estavam fazendo atrs das
paredes, ou falando longe de mim?
      Mas da idia do Super-Homem passei a outra, esta sim, absolutamente
sensacional: eu queria conhecer ao vivo um dos meus heris, Tarz em pessoa!
      -- Quero conhecer Tarz.
      No mesmo instante ouvi l fora o famoso grito do Filho das Selvas, to
meu conhecido e impossvel de ser imitado:
      -- Oiiiiiu!
       Era o mesmo grito com que ele chamava Tantor, o elefante, nos
momentos de perigo. Ouvi uns guinchos e dei com a Chita a meu lado, puxando-
me o brao. A macaca me levou at o quintal e l estava Tarz, enorme,
colossal,  minha espera. Abaixando-se, mandou que eu subisse s suas costas.
Num salto se dependurou num galho da mangueira, dali para outro galho mais
alto, outro ainda, e l fomos ns, Tarz j se balanando num cip comigo s
costas, lanando-se no ar, entre as folhas verdes e os galhos das rvores de uma
imensa floresta. Para onde estaria me levando? Eu abria bem os olhos, para no
perder nada daquele passeio pela selva, nas costas de Tarz. Aquilo era mais
assustador que a montanha-russa, eu morria de medo de cair e me esborrachar l
embaixo. Mal conseguia me segurar nos ombros largos e suados do Homem-
Macaco.
       E o pior  que ele comeou a sentir ccegas.  medida que minhas mos
iam escorregando em suas costas ele se sacudia todo, rindo cada vez mais. Eu 
que no achava graa nenhuma, quase me despencando daquela altura. J havia
imaginado Tarz nas situaes mais fantsticas, mas nunca rindo s gargalhadas.
       Antes que casse ali de cima, mandei que ele se transformasse num pra-
quedas. E vim descendo de mansinho, como se tivesse saltado de um avio, at
cair no quintal da minha casa.
       Estava decepcionado com Tarz: s no mandei que fosse para o diabo
porque me lembrei do guarda naquele filme. Mas eu era mais poderoso, eis tudo.
Era capaz de fazer mais prodgios do que ele, at do que Mandrake.
       Seria mesmo?
       Resolvi convocar o famoso mgico. Ele logo me apareceu com a sua capa
preta e cartolinha na cabea. Tinha o ar cansado e sua casaca me pareceu meio
velha e surrada, como a de um mgico de circo. Vinha seguido de Lotar, seu fiel
ajudante. Preferi dispensar o negro:
       -- Voc no. Pode ir embora.
       Lotar fez uma curvatura em despedida e se evaporou no ar. Ento
perguntei ao Mandrake:
       -- Quem  mais poderoso? Quem faz mgicas ou quem faz milagres?
       -- Quem faz milagres -- respondeu ele modestamente.
       -- Ento sou mais poderoso que voc.
       -- No, porque o seu poder vai acabar, e o meu vai continuar
eternamente.
       -- Como  que voc sabe?
       -- Sei, porque o meu mundo  o das figurinhas, onde tudo dura para
sempre, ao passo que, no seu, tudo comea e acaba.
       Agarrei-me  sua mo, ansioso:
       -- Quando  que vai acabar o meu poder de fazer milagres?
      -- Quando voc quiser.
      -- Nunca vou querer.
      --  o que voc pensa.
      -- Ento faz uma mgica bem boa para mim. Ele tirou a cartola, me olhou
no fundo dos olhos, como se estivesse me hipnotizando, e falou:
      -- Meta a mo nesta cartola, que tem uma coisa para voc.
      Fiz como ele mandava e tirei da cartola um canivetinho vermelho. Tinha
vrias lminas e at uma tesourinha, mas no passava de um canivete. Achei
aquela mgica meio boba. Em todo caso, era um presente dele -- embora eu,
com o meu poder milagreiro, pudesse conseguir coisa mil vezes melhor.
      Sem uma palavra, ele botou a cartola na cabea, fez meia-volta e se
afastou, saindo para a rua pelo porto da frente, como uma pessoa qualquer.


FIQUEI impressionado com o que o Mandrake me havia dito. A minha sensao
era de que o poder de fazer milagres ia se acabar de uma hora para outra. Por via
das dvidas, resolvi empurrar a noite mais para diante e fazer ainda um grande
milagre naquele dia.
       Qual podia ser?
       De sbito me ocorreu uma idia, saltei de alegria:
       -- Eu quero visitar o Stio do Pica-pau Amarelo!
       No mesmo instante me vi andando por uma estradinha, passei por uma
porteira, e l estava a Narizinho Arrebitado sentada nos degraus da varanda do
famoso stio, tendo Emlia a seu lado. Mandei que a tarde se prolongasse o
tempo que eu quisesse e passei toda ela conversando com aquele pessoalzinho,
um por um. O Visconde de Sabugosa me pareceu muito mais engraado
pessoalmente que nos livros. Veio me cumprimentar todo emproado, tirando a
cartolinha num salamaleque:
       -- Bem-vindo a esta casa, Dom Fernando.
       O Marqus de Rabic me espiava de longe, meio encafifado com a minha
apario, mas acabou se chegando, a mexer no ar o seu rabinho de saca-rolha.
Depois Dona Benta veio me oferecer umas mes-bentas e uma deliciosa xcara
de chocolate. Tia Anastcia estava resmungando l na cozinha, at parecia a
Alzira, s que era preta e gordona. Estava se queixando do Pedrinho, que
certamente fizera mais uma de suas travessuras.
       Quando me viu, Pedrinho me chamou de lado e perguntou se era verdade
que eu sabia fazer milagres.
       -- Mais ou menos -- respondi, encabulado. -- Eu queria que voc
fizesse um para mim -- pediu ele: --  por causa da tia Anastcia. Ela no
acredita que a terra  redonda e que os japoneses esto de cabea para baixo, s
no caem por causa da atrao da Terra.
      Com o ar superior de quem sabe as coisas, falei:
      --  a lei da gravidade.  s acabar com ela, para ver o que acontece.
      No era propriamente uma ordem, nem mesmo um pedido de milagre,
mas soou como se fosse. E de repente Pedrinho  minha frente, eu, Narizinho na
varanda, a varanda, o stio inteiro com a Emilia, o Visconde, o Marqus, a Dona
Benta, a tia Anastcia, as rvores, as casas, tudo saiu voando pelos ares como
numa tremenda ventania. Me lembrei do filme sobre o homem que fazia
milagres e, entre duas cambalhotas, mal tive tempo de fazer como ele, pedir
depressa para acabar com aquilo, voltar ao que era antes dos milagres.
      -- Apague essa luz que eu quero dormir. Era a voz do Toninho. Abri os
olhos e vi que eu estava na cama, pronto para dormir. Olhei intensamente para a
luz e mandei que ela se apagasse. Nada aconteceu. Ento fui at l e apertei o
boto. Voltei para a cama e em pouco tempo estava dormindo.
      Ao acordar, mal me lembrei dos milagres, seno de maneira confusa,
como se tudo no tivesse passado de um sonho. Mas depois de vestir a roupa, ao
meter a mo no bolso da cala, encontrei um objeto, retirei para ver: era um
canivetinho vermelho.
                                                CAPTULO III


COMO DEIXEI DE VOAR



N
         aquele tempo os avies se chamavam aeroplanos. Era s passar um
         avio e eu saa no meio da molecada, em algazarra pela rua, apontando
         o cu e gritando:
       -- Aeroplano! Aeroplano!
      Ouvindo a gritaria, os mais velhos se debruavam nas janelas e olhavam
para cima, procurando Ver tambm. No eram avies grandes nem de metal
como os de hoje, mas teco-tecos de madeira e lona, duas asas de cada lado, uma
em cima da outra, presas com arames cruzados. Nele s cabiam dois aviadores
que a gente podia ver, a cabecinha de fora, com um gorro de couro e culos
tapando os olhos para no entrar poeira.




       Uma vez papai nos levou ao campo de aviao do Prado para ver as
acrobacias. Eu mal conseguia pronunciar essa palavra, quanto mais saber o que
ela significava.
       Foi um deslumbramento.
       Eram dois ou trs aviezinhos: levantavam vo como se fossem de
brinquedo e faziam piruetas, voavam de cabea para baixo, desciam, quase se
arrastavam no cho e tornavam a subir.
       Um deles comeou a soltar fumaa, fazendo letras no ar, escrevendo
palavras inteiras.
       A certa altura dois avies passaram a voar juntinhos, um em cima do
outro, quase se esbarrando. Ento um dos aviadores do que estava embaixo
realizou a proeza mxima, eu no podia acreditar no que meus olhos viam: saiu
do seu buraquinho no avio e foi se agarrando pelo lado de fora, subiu na asa e
se dependurou nas rodas do outro! Depois montou no eixo como se estivesse
fazendo ginstica numa barra, pernas para o ar, passou para a asa de baixo,
agarrado na de cima, e foi assim que voltou  terra, triunfante, at o avio
pousar.
       Fizeram mil outras faanhas de encher os olhos.
       De repente, a multido que assistia ao espetculo areo, dentro e fora do
campo de pouso do Prado, soltou um grito: um dos avies que acabara de passar
baixinho em cima de nossas cabeas no conseguiu ganhar altura e foi cair l
fora, no descampado, para os lados do Calafate.
       Um caminho partiu em disparada para o local. Em pouco voltava,
trazendo os destroos do avio e os dois pilotos, um deles bastante machucado
(pude v-lo encolhido ao lado do motorista, com o rosto ensangentado). Os
mais velhos diziam ao redor, sacudindo a cabea, admirados, que ele tinha
nascido de novo.
       O desastre no chegou a me impressionar. Do espetculo ficou a
lembrana da maravilha que era aquilo, poder pilotar um avio. E resolvi no
esperar ser grande para poder realizar o meu desejo: eu mesmo fabricaria um
avio.
       Para isto, aproveitaria um carrinho de pedal que meus pais me tinham
dado no meu ltimo aniversrio. Era um carro de corrida, e para dirigi-lo eu
entrava nele como um piloto no avio. Bastava colocar as asas.
       Cortei uns bambus do quintal, preparei umas taquaras como fazia para a
armao de um papagaio, s que bem mais longas e grossas; com elas e pedaos
de um velho lenol colados com grude de polvilho, fiz duas asas, que amarrei de
cada lado do carrinho. Depois preguei na traseira umas asas mais curtas e o
leme, tambm de pano e taquara.
       Estava pronto o avio, mas e o motor?
       Levei algum tempo estudando um aviozinho de brinquedo que me serviu
de modelo. Tinha uma hlice presa num elstico esticado at um gancho entre as
asas: era s enrolar a hlice com o dedo e soltar, que o aviozinho saa voando.
       Estava ali o meu motor: bastava imit-lo, em tamanho maior.
       A hlice foi aproveitada das ps de um ventilador imprestvel que
encontrei no quarto de despejo, l no barraco do fundo do quintal. A borracha
de uma velha cmara de ar da bicicleta do Toninho faria o papel do elstico. Foi
um custo conseguir enrol-la, depois de esticada entre a hlice e o prego fincado
junto s asas para servir de gancho: a cmara de ar ia se enrolando, se enrolando,
a hlice ia ficando cada vez mais dura para girar e de repente se desenrolava
toda, por pouco no me decepou a mo. O avio chegava a se erguer do cho, eu
tinha de segur-lo para que no levantasse vo sem que eu tivesse tido sequer
tempo de entrar nele.




      Acabei encontrando a soluo: liguei a hlice, por um sistema de cordas, 
minha manivela de empinar papagaio. Com ela no colo, eu podia enrolar a
borracha, j sentado no avio. Depois, era s largar a manivela, que ela deixava
a borracha se desenrolar sozinha, impulsionando a hlice.
      Tudo pronto para a grande aventura, coloquei o aviozinho num canto do
quintal, e instalei-me dentro dele. No faltava nem uma touca de banho de
minha me e uns culos de carnaval, que eu usava como os de um aviador de
verdade. E me preparei para a decolagem, torcendo a manivela at o mximo
que pude.
      A cmara de ar, enrascada como um cip, se desenrolou com toda a fora,
impulsionando a hlice. E l fui eu, deslizando pelo cho!
      S que o avio no levantou vo: correu comigo pelo quintal e espatifou-
se de encontro ao muro. Fiquei todo machucado (embora no tanto quanto o
aviador de verdade no desastre do Prado). O pior  que perdi o meu carrinho de
corrida, que ficou para sempre arrebentado.
      Com essa desastrada aventura, desisti de voar -- pelo menos enquanto
no pudesse ter um avio de verdade.


AT que, um dia, uma idia nova me surgiu na cabea. Uma idia to doida,
que eu no teria coragem de cont-la para ningum: pensariam que eu tinha
ficado completamente maluco e me internariam num hospcio. No me veio de
repente, mas aos pouquinhos, depois de observar vrios fatos midos que
aconteciam comigo, e que fui ligando a outros at chegar a uma concluso.
       Fiquei pensando, por exemplo, numa brincadeira que eu fazia sempre, ao
me pr de p: costumava puxar os cabelos para cima, como se aquilo me
tornasse mais leve, ajudando a me erguer da cadeira. E os outros achavam graa.
       Tinha tambm a mania de fingir que me agarrava em algum apoio
imaginrio no ar -- uma barra, uma corda, uma argola -- para me tornar mais
leve ao me levantar da cama.
       Pois comecei a reparar que tanto uma coisa como outra realmente me
faziam mais leve, no era apenas iluso.
       Minha me tinha me contado que no seu tempo de criana havia uma
brincadeira muito divertida: um balo de borracha cheio de um gs mais leve
que o ar, mas bem grande, que se prendia no ombro das pessoas e as fazia mais
leves, quase no tocando o cho, e cada passo era um salto gigantesco, como se
fossem levantar vo... No sei se isso era inveno de mame (tive a quem
puxar) -- o certo  que me deixou fascinado, doido de vontade de experimentar
a brincadeira.
       Mas onde arranjar um balo como aquele?
       Uma noite tive um sonho maravilhoso: sonhei que sabia voar. Bastava
movimentar os braos, mos abertas ao lado do corpo fazendo crculos no ar, e
eu me descolava do cho como um passarinho, saa voando por cima das casas e
pelos campos sem fim.
       Durante vrios dias aquele sonho no me saiu da cabea.
       Acabei cismando que poderia torn-lo realidade. Ia para o fundo do
quintal e, longe da vista dos outros, ficava horas seguidas ensaiando o meu vo.
Mexia com as mos, sem parar, como fizera no sonho, e nada. Eu sabia que no
era uma questo de fora, mas de conseguir estabelecer, com o movimento
harmonioso das mos, um misterioso equilbrio entre o meu peso e o peso do ar.
Como se estivesse dentro d'gua e quisesse me manter  tona: qualquer gesto
mais forte ou afobado e eu me afundava.
       Pois um dia, depois de muito treino, senti que comeava a ficar mais leve.
Ou era s impresso? Tinha passado a fazer aqueles exerccios de calo de
banho, justamente para sentir que, sem a roupa, meu peso era menor. E naquele
instante parecia que eu estava quase flutuando no ar. Experimentei dar uns
passos, bem de mansinho, como se estivesse andando em cima d'gua. E a
sensao foi de no estar tocando o cho. Descalo, j no sentia na sola dos ps
o contato spero da terra do quintal.
       Por vrios dias repeti a experincia. Ao fim, j sabia instintivamente os
movimentos que tinha de fazer com o corpo para comear a flutuar, como
algum que tivesse aprendido a nadar. Um ligeiro impulso com os braos, bem
devagar, levantando os cotovelos, me fazia deslizar mansamente, como se
estivesse usando patins invisveis. Apenas no tinha fora suficiente para ganhar
altura, e toda vez que eu me impacientava e fazia um movimento mais rpido,
sentia meu corpo de sbito se abater contra o solo.
       Com a prtica, acabei conseguindo me erguer um ou dois palmos e sair
deslizando pelo quintal durante algum tempo. Mas era pouco. Assim de p, no
podia dizer que estivesse voando. Eu percebia que s deitado, braos abertos
como as asas de um pssaro,  que chegaria a voar de verdade. Mas quando
experimentava me deitar e movimentar os braos como fazia de p, sentia que
jamais sairia do cho. Era como querer nadar no fundo de uma piscina sem gua.
       Acabei me convencendo de que, para sair voando, eu teria de j estar no
ar.
       Como? Subindo na mangueira e me atirando l de cima? Eu no era
maluco a este ponto: o peso do meu corpo faria com que eu me esborrachasse c
embaixo no cho. Era preciso que tivesse como tomar algum impulso...
       Foi ento que me veio a soluo.
       Como j disse, no fundo do quintal de nossa casa havia um pequeno
bambuzal. Uma das brincadeiras que a gente fazia ali era a de se dependurarem
vrios meninos num dos bambus, fazendo com que ele se entortasse at que
tocassem o p no cho. Em dado momento todos, a um s tempo, largavam o
bambu, menos o que estivesse na ponta: este continuava dependurado e subia
como um foguete, agarrando-se com todas as foras no bambu pura no ser
atirado longe. E ficava balanando de um lado para outro l em cima, como um
pndulo, at que o movimento parasse de todo e ele pudesse vir escorregando
bambu abaixo.
       Mais de uma vez eu participara daquela brincadeira. Sendo o menorzinho,
e portanto o mais leve, em geral era o que ficava mais tempo balanando,
dependurado na ponta do bambu.
       S que, agora, eu no ia apenas me dependurar: ia subir com o bambu e
aproveitar o impulso para sair voando.


EVIDENTEMENTE no contei a ningum a minha Inteno.
       A princpio tudo deu certo: a subida foi sensacional. Quando a meninada
largou o bambu, esperei que ele se empinasse, e larguei tambm. Fui projetado
para cima como uma bala de canho. Subi, subi, subi, vendo l embaixo no
quintal diminurem cada vez mais as figurinhas dos outros meninos, agitando os
braos para mim, cheios de espanto e admirao.
       Em pouco tempo eu podia avistar do alto no somente o telhado da minha
casa entre as rvores, como a cidade inteira com as suas ruas e praas, nibus,
bondes e automveis deslizando como baratinhas.
       Mas tudo comeou a rodar diante de meus olhos quando meu corpo,
perdendo o impulso que lhe havia dado o bambu, passou a virar cambalhotas no
ar como as piruetas de um avio. Senti que era tempo de comear a voar por
mim mesmo, antes que despencasse l de cima como uma pedra.
       Abri os braos, procurei uma posio de equilbrio, como se fosse um
pssaro, e movimentei as mos como tinha ensaiado. Um bando de andorinhas
passou por mim em revoada, sem tomar conhecimento de minha presena. O
silncio ali em cima era impressionante. Vi pouco acima de mim e meio de lado
um urubu planando calmamente ao sabor do vento e a me olhar, desconfiado.
Aquele bicho era capaz de me trazer azar.
      -- Vai embora, urubu! -- gritei, mas ele nem ligou.
      Tentei imit-lo no seu vo, quando percebi que eu estava era caindo
mesmo. E cada vez com mais velocidade, apesar de meu esforo para me manter
no ar. Eu sabia que quanto mais me agitasse, mais rpida seria a queda. No
entanto, no conseguia me conter e mexia os braos e as pernas, desesperado
como algum que dentro d'gua perde as foras e comea a se afogar. E sempre
caindo. L embaixo o telhado das casas, as rvores, as ruas j se aproximando
velozmente.
      Senti que estava perdido. No adiantava mesmo continuar a me mexer.
      Ento fechei os olhos e esperei pelo pior. Meu corpo assim esticado
pareceu que j no tombava to depressa: planava um pouquinho no ar, como o
urubu, sustentado pelo vento que estava soprando. Mas continuava caindo -- em
poucos segundos eu estaria me arrebentando l embaixo no cho.
      S me restava pedir a Deus que tivesse piedade de mim, me levasse de
uma vez para o cu.
      Foi quando ouvi um barulhinho no ar. Abri os olhos e vi o aeroplano
voando l longe, depois fazendo uma volta e vindo em minha direo. O piloto
parece ter me visto tambm, pois se aproximava cada vez mais. Ao chegar bem
perto fez um sinal com o brao. Respondi com um gesto aflito de quem pede
socorro. Ele deve ter entendido: fez uma volta e veio vindo por detrs, para
passar bem em cima de mim. Procurei planar o mais possvel. braos abertos, e
quando vi que ele se emparelhava comigo, ergui os braos e me agarrei com
fora no eixo entre as rodas, como havia feito o aviador nas acrobacias l do
Prado.
      No foi fcil montar no eixo e dali passar para a asa, mas acabei
conseguindo. Na hora do aperto a gente  capaz de tudo.
      Por detrs dos seus culos colados no rosto, o piloto me olhava,
assombrado. Logo o avio ganhou velocidade, rumando para o campo de pouso.
      Ao fim de algum tempo, que me pareceu uma eternidade, acabamos
descendo mansamente na pista.
      Nem bem o avio tinha parado na grama, meu pai chegava esbaforido
num carro de praa, para me buscar. Avisado pelos outros meninos da minha
aventura, havia tomado aquele carro de aluguel -- coisa que s fazia nas
grandes ocasies.
      Depois disso no voltei mais a sair do cho. Minha me achava que eu
andava muito magrinho, me obrigava a comer de tudo e tomar fortificante para
engordar. Acabei engordando mesmo. No muito, mas o bastante para no
conseguir mais voar.
                                                 CAPTULO IV


O MISTRIO
DA CASA ABANDONADA



M
           AS consegui    coisa mais importante: me tornei agente secreto.
             O Departamento Especial de Investigaes e Espionagem Olho de
             Gato achava-se instalado nos altos do prdio situado na Praa da
Liberdade, nmero 1458, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, Amrica do
Sul, Hemisfrio Ocidental, Terra, Universo
       Ou seja: no forro da minha casa.
       Era uma sociedade secreta, constituda de quatro agentes: Odnanref,
Anairam, Hindemburgo e Pastoff. Um casal de brasileiros, um alemo e um
russo. Odnanref era meu nome de guerra, e eu o chefe da organizao. Anairam
era Mariana, filha da dona Cacilda, a nossa vizinha da casa ao lado.
Hindemburgo, como j disse, era o cachorro policial. Ele no parecia gostar
muito que a sociedade se chamasse Olho de Gato, mas gato  que enxerga no
escuro, no podamos dar a ela o nome de Olho de Cachorro, como o referido
agente certamente pretendia. E Pastoff era o coelho cinzento que meu pai tinha
me dado para substituir a galinha Fernanda, que havia morrido de velha. Quem o
batizou assim foi o Gerson, meu irmo mais velho, afirmando que Pastoff queria
dizer coelho em russo -- afirmao que desconfio no ser verdadeira. Nossos
inimigos mais prximos eram, pela ordem: a Alzira, por viver nos espionando;
seu Loureno, o jardineiro portugus, que me passou uma corrida s porque fiz
pipi dentro do regador; seu Policarpo, tio da agente Anairam, que tinha dado
umas palmadas na sobrinha quando a surpreendeu mexendo nos seus guardados,
por estar desconfiada de que ele pertencia a uma organizao inimiga; e o
Godofredo, que me delatou quando escondi a Fernanda debaixo da bacia, para
que no a servissem ao molho pardo no almoo do Dr. Junqueira. Era talvez o
inimigo mais perigoso, pois vivia dando com a lngua nos dentes (que no tinha)
-- uma lngua preta, s de olhar j dava nojo. Por causa dele tivemos de
transferir a sede da sociedade para o forro: Godofredo prestava mais ateno que
uma coruja, l do seu poleiro  entrada do poro, onde a principio nos
reunamos. A qualquer coisinha disparava a tagarelar, chamando a ateno de
todo mundo com a sua falao.




       Entrvamos no forro de maneira meio complicada: pelo alapo na parte
do teto que ficava exatamente sobre a mesa da copa. Quando no havia ningum
por ali, colocvamos uma cadeira em cima da mesa, para alcanar o forro.
Depois de subir, tnhamos de recolocar a cadeira no cho (para que ningum
suspeitasse ao v-la ali) com a ajuda de uma corda e um gancho que ento
recolhamos. Para sair, era s nos dependurarmos nas bordas do alapo e saltar
na mesa.
       Os agentes que subiam e desciam com mais facilidade eram justamente o
Hindemburgo e o Pastoff, por serem bons de salto.
       Fechada a portinhola de entrada, comevamos a reunio, sob o telhado,
por entre cujas frinchas entravam alguns fiapos de luz do sol.
       Tnhamos de falar baixo e pisar de leve, para no fazer barulho no forro.
Mas podamos andar por ele  vontade, em cima de todos os quartos da casa e
at mesmo ver o que se passava l embaixo por alguma fresta nas tbuas. S que
no havia grande coisa a espionar, seno algum trocando de roupa, o que em si
no tinha nada que merecesse maiores investigaes.
       Havamos deslindado vrios mistrios, que desafiariam a argcia dos mais
hbeis detetives e espies do mundo inteiro. Conseguimos descobrir quem tinha
chupado os ovos no ninho do galinheiro da casa de nossa agente Anairam: um
gamb que, ao ser descoberto, sumiu para sempre sem deixar vestgios, alm de
um rastro de mau cheiro. Tnhamos desmantelado uma rede de contra-
espionagem chefiada pelo Gerson. Ele era capaz de verdadeiros prodgios, como
entrar no nosso quarto pela janela do segundo andar (e jamais soube voar como
eu) para abrir meu armrio e o do Toninho e ver o que tinha dentro, usando
gazuas e chaves falsas. Graas ainda s nossas investigaes, descobrimos que
uma nova empregada conseguira em uma semana furtar objetos de todo mundo
dentro de casa, at da prpria Alzira, sua colega de quarto. Mas nossa maior
proeza seria a da casa abandonada, motivo da reunio que eu havia convocado
para aquele dia.


ANTES de mais nada, seria preciso tomar vrias providncias. A mais urgente
delas era a respeito da nossa linguagem cifrada, pela qual obrigatoriamente nos
comunicvamos:
        -- Nopo popodepemosps fapalarpar maispais napa linpinguap dop
pep. Op Gerpersonpon sapabep fapalarpar nepessap linpinguap. Hopojep
epelep enpentenpendeupeu tupudop quep fapaleipei nop tepelepefoponep.
        Pela manh eu tinha telefonado para a agente Anairam, convocando-a
para a reunio. Em geral, quando tnhamos assunto mais longo para falar,
usvamos nosso telefone privado, feito de um barbante passado por cima do
muro e tendo em cada extremidade a parte de dentro de uma caixa de fsforos.
Usvamos ento linguagem comum mesmo, que mal conseguamos escutar. No
dava para usar a lngua do p, como em nossas conversas no telefone de
verdade, que estavam correndo o risco de ser ouvidas e entendidas pelo Gerson.
        Propus aos demais que dali por diante a nossa lngua oficial passasse a ser
o alemo:
        -- Aus, enter, nter, mber, fter. Smber vaus-mosmber faus-laus aus-
snter.
        Um pouco mais complicado que a lngua do p: cada vogai tinha um som
diferente. Mas Anairam aprendeu logo. Os outros dois agentes naturalmente se
limitavam a prestar ateno, um abanando o rabo, o outro as longas orelhas, pois
no falavam lngua nenhuma. Mas Hindemburgo, que era alemo, parecia
satisfeito porque passaramos a falar no seu idioma.
       -- Munter-tmber bnter -- disse ela. -- Vmber-cnter rnter-cnter-
befter mnter-nhaus mnter-saus-gnter snter-crnter-taus?
       Realmente, ela tinha me mandado naquele dia uma mensagem secreta, e
agora estava querendo saber se eu havia recebido. Limitara-se a atirar por cima
do muro um papel em branco enrolado numa pedra, depois que soube ser
perigoso usar o telefone de nossas casas. Escrevera a mensagem com tinta
invisvel,  lgico. Costumvamos usar dois processos, dependendo da ocasio:
um era escrever com a caneta molhada em xixi: bastava esquentar o papel na
chama de uma vela, que a escrita aparecia. Outro, era escrever a lpis com fora
num papel colocado sobre outro bem molhado. Quando o papel secava, no se
via nada escrito nele: era preciso tornar a molh-lo para poder ler.
       Como aquele papel ainda estava meio mido, vi logo que ela tinha usado
este segundo processo. Foi s molh-lo de novo debaixo da torneira, e pude ler:

               DE ANAIRAM PARA ODNANREF:
               URGENTE INVESTIGARMOS CASA
               ABANDONADA POSSVEL EXISTNCIA
               TESOURO.

      Ela se referia a uma misteriosa casa na Avenida Joo Pinheiro, onde
sabamos que no morava ningum havia anos. Diziam mesmo que era mal-
assombrada. O imenso casaro ficava fronteiro  rua, com uma varanda ao lado,
dando para um jardim. A pintura estava descascando nas paredes, as janelas
apodrecidas e desconjuntadas, o mato tomando conta do jardim, a hera subindo
pela fachada, teias de aranha nas grades da varanda, o porto enferrujado,
morcegos vivendo nas frinchas do telhado. amos sempre olh-la durante o dia,
fascinados: que haveria l dentro? No seria de espantar se de noite os fantasmas
se reunissem ali para celebrar o fato de j haverem morrido.
       Anairam props que fssemos l naquela noite, para proceder a uma
investigao completa. Achei prudente sugerir que de noite as coisas ficavam
um pouco mais difceis, no se enxergava nada! Melhor irmos mesmo de dia.
Ela alegou que de dia ns  que corramos o risco de sermos vistos.
       Sermos vistos por quem? Se l no morava ningum?
       -- Pnter-losmber vnter-znter-nhosmber.
       Pelos vizinhos -- ela tinha razo. Respirei fundo, tomando coragem, e dei
a palavra de ordem: iramos l naquela noite mesmo.


NAO foi fcil sair de casa de noite. Tive de esperar todo mundo dormir,
inclusive o Toninho, que nunca teve to pouco sono: ficou lendo na cama at
tarde. Foi a minha vez de reclamar:
       -- Vou apagar essa luz, que estou com sono, quero dormir.
       Quando me certifiquei de que no havia ningum mais acordado, tirei o
pijama, me vesti no escuro e sa p ante p. Convoquei o Hindemburgo com um
assobio. Ele compareceu logo, lngua de fora, todo animado. Pastoff tambm se
juntou a ns em dois pulos e samos os trs, para encontrarmos a agente
Anairam j  nossa espera no porto de sua casa. Vestia uma capa de chuva
sobre a camisolinha, o que lhe dava um ar de espia de cinema. E fomos juntos
pela rua em direo  Avenida Joo Pinheiro.
       Quando chegamos em frente  casa abandonada, ouvimos o sino da igreja
de Lourdes dar pausadamente doze badaladas, que ficaram vibrando no ar
aterradoras: meia-noite! Hora em que os fantasmas apareciam, saindo de seus
tmulos, e o capeta andava solto na escurido da noite. Fazia frio e vi que a
agente Anairam tremia tanto quanto eu, mas ainda assim levamos em frente a
nossa aventura.
       No foi difcil transpor o porto: um ligeiro empurro e ele se abriu,
devagar, rinchando nas dobradias. Fomos avanando por entre o mato do
jardim. Alguma coisa deslizou junto a meus ps -- um rato, certamente, ou
mesmo um lagarto. Engoli em seco e prossegui a caminhada ao lado de minha
companheira, seguido dos outros dois agentes.
       Ao chegar  varanda, ordenei a ambos que ficassem ali e nos esperassem.
No convinha entrarmos todos ao mesmo tempo. Algum tinha de ficar de
sentinela do lado de fora.
       Subimos os degraus de pedra em plena escurido e tateamos pela parede 
procura da porta. Tnhamos trazido conosco uma caixa de fsforos e uma vela,
mas no era prudente acend-la ali: poderamos chamar a ateno de algum na
rua, algum guarda-noturno rondando por l.
       Encontramos a porta e foramos o trinco. Estava trancada por dentro, no
houve jeito de abrir. Era to fraca e a madeira parecia podre, eu seria capaz de
arromb-la com um pontap, s que faria muito barulho. Preferimos forar a
janela que dava tambm para a varanda. Era s quebrar o vidro, meter a mo e
puxar o trinco.
       Tirei o sapato e bati fortemente com o salto no vidro, que se espatifou
num tremendo rudo. Assustado, Hindemburgo latiu no jardim, por sua vez nos
assustando tanto, que nosso primeiro impulso foi fugir correndo.
       Como no acontecesse nada, ao fim de algum tempo resolvemos continuar
a nossa misso. Aberta a janela, fui o primeiro a pular. Depois ajudei Anairam a
entrar tambm. S ento, j dentro de casa, nos arriscamos a acender a vela.
       Era uma sala grande, onde no tinha nada, a no ser poeira no cho e
manchas de mofo pelas paredes forradas de papel estampado. A chama da vela,
trmula, projetava sombras que se mexiam, pelos cantos, ameaadoras, enquanto
avanvamos.
       Em pouco vimos que ali embaixo s havia uma cozinha, onde vrias
baratas fugiram correndo pelo cho de ladrilhos encardidos, um quartinho e
outra sala com janeles dando para a rua. Mais nada.
       Restava subir a escada e investigar o que havia nos quartos l em cima.
       Subimos devagarinho, eu na frente, conduzindo a vela, a agente Anairam
se agarrando na minha blusa. Procurvamos no fazer barulho, mas os degraus
de madeira da escada, j meio podres, rinchavam, dando estalinhos debaixo de
nossos ps.
       No segundo andar, empurramos a porta do primeiro quarto no corredor e
entramos. Era um quarto grande, mas a vela no dava para ver nada, a no ser a
nossa prpria sombra projetada na parede.
       Foi quando, de sbito, a luz se acendeu e tudo se iluminou.
       No primeiro instante ficamos deslumbrados com aquela claridade e nos
voltamos para ver quem tinha acendido a luz. Soltamos juntos um grito de pavor
-- parado junto  porta estava um velho horrendo, alto, barba suja, cabelos
desgrenhados, a nos olhar, mos na cintura:
       -- Que  que vocs dois esto fazendo aqui? Quem so vocs?
       A voz dele era rouca e nos meteu mais medo ainda. Ele avanou em nossa
direo e fomos recuando de costas, at a parede.
       -- Vocs merecem  uma boa surra -- e o velho apanhou um pedao de
ripa no cho.
       Quando j estava com o brao erguido para nos bater, vimos por detrs
dele surgirem na porta os agentes Pastoff e Hindemburgo que, alertados pelo
nosso grito, tinham vindo a toda pressa nos defender. O primeiro em trs pulos
se colocou na frente do velho, onde ficou saracoteando para distrair sua ateno,
enquanto o segundo de um salto se atirava em suas costas e o derrubava.
       Anairam e eu aproveitamos a confuso para fugir do quarto e despencar
escada abaixo, largando pelo caminho a vela ainda acesa. Fomos ultrapassados
pelo velho, que ao ver aquele cachorro em cima dele sentiu mais medo do que
ns.
       Nem sei como conseguimos saltar to depressa pela janela por onde
havamos entrado, e ganhar a rua num atropelo, aos gritos de acordar o
quarteiro inteiro. Quando vimos, os outros dois agentes estavam a nosso lado,
fugindo conosco. Fomos cada um para o seu lado -- Anairam para a sua casa,
eu para a minha, Pastoff para sua toca no quintal, Hindemburgo para o poro
onde dormia.


NO DIA seguinte ficamos quietinhos, nem ousamos nos reunir. Mas soubemos,
pelas conversas dos mais velhos, de tudo que havia acontecido. Tinha dado at
notcia no jornal. A nossa gritaria chamou a ateno dos vizinhos, que
acordaram e viram de suas janelas a casa abandonada comeando a pegar fogo -
a vela que deixei cair causou o incndio. Chamaram os bombeiros e veio
tambm a polcia, ainda em tempo de prender o velho: era um ladro perigoso,
que usava aquela casa para guardar objetos roubados. Um dos vizinhos chegou a
declarar aos jornais que tinha visto uns meninos e um cachorro fugindo da casa
em chamas. Mas no se descobriu nada a nosso respeito, acharam que o vizinho
estava vendo fantasmas.
       Passado o perigo, alguns dias mais tarde a sociedade secreta Olho de Gato
voltou a se reunir, para avaliar a situao e estudar as prximas misses.
Entramos de manh no nosso esconderijo e, esquecidos do tempo, ficamos horas
comentando os riscos que tnhamos enfrentado. At Hindemburgo participou
dos debates, a rosnar de alegria l na lngua dele, pelo grande sucesso de sua
atuao, salvando-nos a vida: ganhou um belo naco de carne que roubamos da
Alzira na cozinha, e Pastoff foi premiado com meia dzia de cenouras.
       Estvamos em meio s celebraes, quando ouvimos um barulhinho no
canto do forro. A agente Anairam foi at l investigar. De repente ela soltou um
berro e voltou correndo, como se mil demnios a perseguissem
       --  o gamb!
       Apavorados, nos precipitamos todos para a sada no alapo: era o gamb
que havamos surpreendido chupando ovos no galinheiro da casa de nossa
companheira. Foi abrir a portinhola e saltamos um atrs do outro para a mesa l
embaixo.
       Foi ento que se deu o desastre.
       Distrados com a animada reunio, no tnhamos percebido que o tempo
havia passado, estava na hora do almoo. E a famlia inteira almoava naquele
instante, reunida em torno  mesa. Pastoff caiu direto dentro da sopeira, saiu aos
pulos borrifando sopa em cima de todo mundo. Hindemburgo, grandalho, em
dois saltos ganhou o cho, no sem antes pisar nos pratos do papai e da mame,
espalhando comida para todo lado. Eu ca com as pernas enganchadas no
pescoo do Gerson e Anairam se estatelou de quatro no meio da mesa, uma das
mos na travessa de arroz, a outra na de batatinhas fritas e os joelhos num
pastelo de carne. S o gamb no pulou atrs de ns: se limitou a meter o
focinho pelo alapo, para dali acompanhar os acontecimentos. Mas deu para
sentir o fedor de sua presena.
       Foi um susto tremendo, verdadeiro pandemnio. Devem ter achado que a
casa vinha abaixo. Nunca conseguiram saber direito o que havia acontecido e
muito menos o que estvamos fazendo no forro da casa. No havia como
entender as nossas confusas explicaes.




      E foi assim que entrou em recesso a sociedade secreta: os quatro agentes,
Odnanref, Anairam, Pastoff e Hindemburgo se recolheram cada um ao seu
canto, e o Departamento Especial de Investigaes e Espionagem Olho de Gato
suspendeu temporariamente as suas atividades.
                                                   CAPTULO V


UMA AVENTURA NA SELVA



V
         OLTEI ento a me empolgar pelas aventuras de Tarz ou pelas
         desventuras de Robinson Cruso. Tinha vontade de imit-los. Era
         pensando em Tarz que eu subia na mangueira, dava o meu grito da
selva e saltava de galho em galho, chegando mesmo a passar, dependurado
numa corda como se fosse um cip, para a mangueira do vizinho, do outro lado
do muro. E como se fosse Robinson Cruso na sua ilha deserta  que resolvi
construir uma cabana no fundo do quintal.
      Primeiro finquei quatro estacas de bambu no cho, formando um
quadrado. Depois ergui as paredes, aproveitando as tbuas de uns caixotes
vazios que estavam havia tempos debaixo da escada da cozinha, sem nenhuma
serventia. Para isso, usei o martelo, o serrote e outras ferramentas de meu pai,
que eu j sabia manejar com alguma habilidade. Aproveitava,  lgico, as horas
em que ele no estava em casa, pois papai no gostava que usassem as suas
ferramentas. Dizia que a gente depois largava tudo espalhado por a.
      O telhado era feito de uns galhos cruzados, sustentando pedaos de lata de
querosene e tampas de latas de biscoito Aymor. A porta e a janela, tambm de
madeira, tinham dobradias feitas de pedaos de couro de um sapato velho e se
fechavam por dentro com uma tramela: um pedacinho de pau que girava, preso
por um prego.
      Aos poucos foi surgindo a moblia da minha nova morada: uma mesa feita
de tbua e quatro pedaos de cabo de vassoura, um banquinho que era outra
tbua em cima de dois tijolos, e a cama, que era um saco de aniagem cheio de
folhas secas em cima de um jirau improvisado. Algumas prateleiras de papelo e
cabides feitos de pregos completavam a arrumao.
      Cuidei tambm de levar para a cabana uma boa proviso de alimentos
furtados da despensa: frutas, latas de sardinha, salame, queijo -- tudo mais que
pudesse comer com auxlio do meu canivetinho, sem precisar de cozinhar.
      E passava horas e horas ali dentro, sozinho na minha ilha deserta. At
parecia que ningum mais sabia da minha existncia. s vezes minha me me
procurava por tudo quanto era canto da casa, o, no me encontrando mandava a
Alzira ir me buscar na cabana:
       -- Deve estar metido l dentro, esse menino. A cozinheira batia na porta
com uma fora que ameaava jogar a cabana no cho, mas eu no abria: ficava
quietinho, sem fazer barulho, esperando que ela acabasse desistindo.
       Uma noite, enfim, resolvi dormir ali. Pedir que meus pais permitissem,
nem pensar: mame vivia dizendo, assim que anoitecia:
       -- Vem pra dentro, menino, olha o sereno!
       E papai no se metia; quem mandava nessas coisas era ela.
       Para facilitar, pensei em confiar meu plano ao Toninho, mas achei que ele
podia querer tambm dormir na cabana, e ali dentro mal cabia um, quanto mais
dois. Ento esperei que todos na casa adormecessem, e sa sorrateiro do quarto
em direo ao quintal, levando o travesseiro e o cobertor.
       No tive sorte: naquela noite caiu um temporal, com raios e trovoadas. A
gua da chuva inundou a cabana, a ventania arrancou pedaos do telhado.
Encolhido num canto, molhado at os ossos, tive de esperar o dia clarear,
debaixo daquele aguaceiro todo. Acabei pegando uma gripe, por pouco no vira
pneumonia. E recebi um castigo bem merecido: fiquei sem sobremesa uma
semana.
       Meu pai, curioso, no dia seguinte foi ao quintal apreciar a cabana. Elogiou
o meu trabalho, mas fez vrios reparos: isso aqui voc no pregou direito; 
lgico que tinha de chover dentro, o telhado no tem inclinao; devia ter
cavado um rego ao redor, para a gua no entrar por baixo da parede.
       -- Voc tem jeito. Mas precisa de aprender umas coisas.
       E disse para minha me, na hora do almoo:
       -- Acho que o escotismo  que vai ser bom para esse menino.


TONINHO j era escoteiro, mas eu ainda no tinha idade seno para ser
lobinho. Ainda assim, meu irmo me levou para a associao e me alistou.
       Em pouco tempo, passei a levar mais que a srio o escotismo. No tanto
pela parte moral -- embora no deixasse de ser interessante amar a Deus sobre
todas as coisas, ter uma s palavra, fazer uma boa ao todos os dias, ser limpo
de corpo e alma, amar os animais e as plantas, respeitar o bem alheio, ser corts
e leal, e outras obrigaes dos mandamentos do escoteiro, que a gente jurava
cumprir. O que me atraa mesmo era a parte prtica e as distraes: transmitir
mensagem  distncia pelo cdigo Morse, com o auxlio de um apito ou de uma
lanterna (logo consegui decorar o alfabeto), ou por semfora, com duas
bandeiras, como fazem os marinheiros; aprender a dar vrias espcies diferentes
de ns; acender uma fogueira com apenas um pau de fsforo ou fazer fogo sem
fsforo algum; armar uma barraca; orientar-me pelas estrelas; tocar tambor;
seguir uma pista em pleno mato -- e mil outras coisas prprias dos ndios e dos
exploradores do oeste.
      Duas vezes por semana l ia eu para a reunio na sede da associao, todo
orgulhoso no meu uniforme de lobinho.
      E chegou enfim o dia de realizar o meu grande sonho: participar de um
acampamento.
ramos uns trinta, e eu o nico lobinho. Toninho tambm foi. Ele no
devia ter nem doze anos, mas j era monitor da patrulha do Lobo, havia passado
na Primeira Classe e conquistado vrias especialidades, cujos distintivos
ostentava na manga arregaada da blusa caqui. Nem por isso parecia pretensioso
ou arrogante. Pelo contrrio: procurava ser humilde e camarada, um grande
companheiro dos demais escoteiros, mesmo os menores como eu. No era s por
ser meu irmo: eu o considerava o meu melhor amigo e ele acabou se tornando
para mim uma espcie de instrutor. Era quem me ensinava as coisas. Com ele 
que aprendi quase tudo do escotismo, inclusive sobre acampamentos. Agora ia
pr em prtica o que aprendera.
      Fomos de trem, numa enorme algazarra, entre cantorias e brincadeiras.
Descemos em Itabirito, de onde seguimos a p at o local onde amos acampar,
fora da cidade e perto de uma floresta.
       Enquanto os demais escoteiros cumpriam cada um sua misso armando o
acampamento, a patrulha do Lobo, chefiada pelo Toninho, foi encarregada de
catar galhos secos na mata, que servissem de lenha para cozinhar e para o Fogo
do Conselho, depois do jantar. Fui com os oito escoteiros, pois ficara mais ou
menos agregado a eles, adotado por aquela patrulha como uma espcie de
mascote.
       Usando suas machadinhas e faces, os escoteiros se espalharam entre as
rvores, cortando galhos aqui e ali. Tambm eu levava, com orgulho,
dependurada ao cinto, a minha faca de campanha. Mas no precisei de us-la,
pois, de acordo com as instrues do comandante da patrulha, minha misso se
limitava a recolher do cho todo graveto que encontrasse.
        Distrado com a tarefa, no reparei que me distanciava dos outros,
embrenhando-me cada vez mais no meio do mato. Quando percebi que j no
mais os via, nem mesmo ouvia suas vozes, procurei regressar, mas no sabia por
onde, tantas eram as voltas que havia dado. O mato era denso ao redor,
impedindo que eu visse qualquer coisa  distncia de uns poucos metros. Mesmo
a luz do dia mal chegava onde eu tinha ido parar, impedida pela copa das
rvores que se fechavam como um telhado sobre minha cabea. E o pior  que j
comeava a anoitecer.
        Procurei prestar ateno, aguando os ouvidos, para ver se escutava
alguma coisa. Realmente deu para captar, ao longe, uns farrapos de conversas e
risadas cada vez mais fracas,  medida que se afastavam, eu no conseguia
distinguir em que direo. Gritei, gritei, mas no deviam ter me ouvido, pois
fiquei esperando um tempo e ningum apareceu. Senti vontade de chorar, mas
resisti: um escoteiro no chora.
        Dava para perceber em que lado o sol se afundava no horizonte, pois seus
ltimos raios conseguiam varar a parede de rvores, deixando no ar uma cortina
de luz. Eu sabia me orientar pelo sol. Bastava virar a esquerda para o poente, e
tinha  minha frente o norte, s costas o sul e  direita o leste. Mas de que
adiantava? Eu no sabia se o nosso acampamento estava na direo do norte, do
sul, do leste ou do oeste. Distrado em olhar o cho  procura de gravetos, eu
no havia prestado ateno a nada, e muito menos por onde ia. O que era
imperdovel num escoteiro, que deve estar sempre alerta.
        Agora eu descobria que estava completamente perdido, e em breve seria
noite. Sabia que tinha ido parar bem longe do acampamento. Devia ter me
afastado dos outros uma longa distncia, andando sem rumo pela floresta. Era
intil tentar voltar. Eu ia acabar me perdendo de vez, e quando viessem  minha
procura, jamais me achariam.


DECIDI no entrar em pnico e encarar com bom humor a minha situao: o
escoteiro  alegre e sorri nas dificuldades. Quando afinal eu voltasse ao
acampamento, possivelmente daramos boas risadas pelo que havia acontecido.
Eu podia at inventar que me escondera de brincadeira, para passar um susto nos
companheiros. A verdade  que temia receber algum castigo, pois deixara de
cumprir a instruo que havia recebido, de no me afastar muito dos meus
companheiros. S que eu no poderia mentir: o escoteiro tem uma s palavra,
sua honra vale mais que a prpria vida.
      E era a minha prpria vida que estava em jogo: pelo jeito, eu teria de
passar a noite em plena mata, cercado de perigo por todos os lados.
       Procurei fazer um levantamento dos recursos com que eu contava para
sobreviver. Havia deixado no acampamento a mochila com mudas de roupa,
cobertor, escova de dentes, e tudo mais. Mas trazia comigo, dependuradas no
cinto ou dentro dos bolsos, vrias peas do equipamento de um escoteiro, e que
me seriam valiosas na situao em que me encontrava: a faca metida na bainha
de couro; o rolo de corda; o canivete (no o vermelhinho, mas outro, dos
grandes, marca Solingem, que meu pai me havia dado no Natal, com uma
poro de lminas, uma pequena lente, serras e at um garfo e uma colher); o
cantil cheio d'gua; a marmita porttil; a caixinha de primeiros socorros, cruz
vermelha na tampa, contendo algodo, esparadrapo, um vidrinho de iodo, outro
de lcool e uns comprimidos para dor de barriga e resfriado; uma cadernetinha
de notas e um lpis. Por azar meu, s no trouxera o apito, que agora serviria
para chamar facilmente a ateno dos meus companheiros, com SOS em Morse.
       Encontrei tambm no bolso um tablete de chocolate Gardano e um pacote
de pastilhas de hortel que havia comprado na estao de Belo Horizonte, antes
de tomar o trem. Como estivesse sentindo fome, comi um pedacinho do
chocolate e chupei uma pastilha de sobremesa. Era preciso tomar cuidado,
economizar gua e aquela rao de alimento, como fazem os nufragos. Aquilo
talvez tivesse de durar muito tempo, at que eu regressasse  civilizao.
       De repente ouvi um rudo a poucos passos.
       Subi com a rapidez de um esquilo ao galho mais alto de uma rvore, e s
quando me senti a salvo, enganchado numa forquilha, pude olhar para baixo e
ver o que me havia assustado: um bicho esquisito, todo riscado nas costas, de
rabo curto e focinho comprido, que foi passando calmamente e logo
desapareceu. Conclu que devia ser um filhote de anta, ou tapir, que j tinha
aprendido a reconhecer: o Tapir de Prata era a mais alta condecorao que um
escoteiro podia receber.
       Achei prudente continuar ali em cima mesmo, onde os perigos eram
menores: s as cobras e as onas, entre os animais ferozes, eram capazes de
subir em rvores. Ao que eu soubesse, naquela mata no devia haver nem uma
coisa nem outra, porque do contrrio o local do acampamento no teria sido
escolhido to perto dela.
       Para no cair durante o sono, amarrei com a cordinha o meu corpo pela
cintura no tronco da rvore, fazendo para isto uma volta-de-fiel. Vi num galho
de outra rvore os olhos acesos de uma coruja me observando. Se tinha coisa no
mundo de que eu no gostava era coruja. Para mim era bicho de mau agouro.
Mas resolvi no acreditar em azar dali por diante: se a coruja no estivesse
gostando da presena daquele estranho ali, azar dela: os incomodados que se
retirem.
       Em pouco tempo passei a escutar uma verdadeira orquestra dos mais
estranhos sons: uivos, assobios, latidos e at mesmo gemidos. A prpria coruja
parecia assustada, e soltava um pio sinistro de arrepiar de medo. A certa altura
varou a escurido uma espcie de gargalhada que fez meu corpo gelar. Cheguei
a fazer o nome-do-padre, pedindo a Deus que me descobrissem o mais depressa
possvel. E comecei a assobiar tudo quanto  msica que eu conhecia, para
espantar o medo.
      Mesmo com aquela zoeira toda nos meus ouvidos, fui aos poucos sendo
dominado pelo cansao e acabei adormecendo.


QUANDO abri os olhos, havia clareado. O sol subia no horizonte. Assim,  luz
do dia, a mata no parecia to assustadora. Pelo contrrio: tudo era tranqilo e
sem mistrio. Vi a um palmo do meu nariz, pousado no galho onde eu
descansava a cabea, um passarinho preto de barriga amarela a me olhar com
curiosidade, a cabecinha torta para um lado. Depois ele me virou as costas e foi
pulando pelo galho afora at a ponta, de onde levantou vo.
       Eu ouvia na mata uma cantoria doida de passarinhos, formando um s
rudo, contnuo e ensurdecedor. Desamarrei-me da rvore, enrolei a corda, e
depois de dependur-la no cinto, desci com dificuldade at o cho. A posio
forada de dormir abraado ao tronco havia deixado meu corpo dodo como se
eu tivesse levado uma surra.
       Dei alguns passos para desenferrujar as pernas. Ao olhar para o cho,
descobri no meio do capim um ninho com seis ovinhos. Deviam ser de co-dorna.
Guardei com cuidado todos eles nos bolsos da blusa, trs de cada lado: ainda
dariam um bom almoo.




      Estava morto de fome e de sede. Molhei o rosto para espantar o resto de
sono, e tomei um pouquinho de gua, que estava com um gosto meio choco,
como toda gua de cantil. Mas me matou a sede. Comi mais um pedacinho do
chocolate, que havia amolecido com o calor do meu corpo: amassado, colava-se
no papel prateado, lambuzando-me os dedos. Mas me matou a fome. E chupei
uma pastilha de hortel, enquanto pensava o que faria agora.
       Conclu que era intil ficar ali  espera. Acabaria mais velho que
Robinson Cruso na sua ilha, antes que me encontrassem. Resolvi ir andando, e
escolhi a direo do sol, porque, me lembrava agora, tnhamos entrado na mata
dando as costas para ele. Mais tarde iria descobrir que era justamente o contrrio
que eu deveria fazer, pois estava me afastando cada vez mais do acampamento:
tinha entrado na mata de tarde, e agora era de manh, o sol estava do outro lado.
       Para poder avanar, eu precisava s vezes abrir caminho no mato com a
faca: arbustos, cips e galhos das rvores se entrelaavam, formando uma
verdadeira rede. Mas fui conseguindo seguir em frente, at chegar a uma
pequena clareira, onde me sentei numa pedra para descansar.
       Enxuguei o suor do rosto, tomei mais um gole d'gua, e estava pensando
se comia ou no comia outro pedacinho do chocolate, quando ouvi uma espcie
de assobio bem baixinho, perto de mim. Olhei para o lado e vi, meio erguida a
dois palmos de minha cara, a cabea de uma cobra enorme, a linginha entrando
e saindo, pronta para dar o bote.
       Fiquei paralisado de pavor, a olh-la tambm. Mas no perdi a calma: tirei
devagarinho a corda da cintura, armei um lao fazendo um lais-de-guia e
segurei-a no ar com as duas mos, esperando o bote. Assim que a cobra avanou
a cabea, fui mais rpido: joguei o lao sobre ela e apertei com toda fora.
Depois fiquei de p e comecei a rodar a corda com violncia sobre a cabea, a
cobra de mais de um metro dependurada girando no ar, j estrangulada, a boca
aberta... Atirei-a no cho e acabei de mat-la, esmigalhando a cabea com a
pedra onde minutos antes estava sentado. Enxuguei o suor do rosto, suspirando
aliviado, me deu at vontade de soltar o grito de vitria do Tarz.
       Depois de tornar a enrolar a corda e dependur-la na cintura, fui-me
embora dali.


O CAMINHO aberto a faco pela mata poderia indicar aos meus companheiros
por onde eu tinha seguido. Mas dali por diante, como a vegetao j no era to
cerrada, fui deixando os sinais de pista de vinte em vinte passos. Uma seta
riscada no cho ou na casca de uma rvore, ou feita de pedrinhas e gravetos,
indicando o caminho a seguir. Um x, indicando o caminho a evitar. Se saltava
um pedregulho, um buraco ou um tronco cado, desenhava uma seta atrs de
outra com dois risquinhos entre elas, o que queria dizer: salte o obstculo. O
sinal de perigo, que era um tringulo, no tinha como deixar: havia perigo por
todo lado. E o corpo da cobra morta na clareira, que eles haviam de encontrar,
era prova disso.
       Quando vi por entre as rvores que o sol estava no alto do cu, decidi
parar. Meio-dia -- era hora do almoo. Me lembrei dos ovos de codorna,
verifiquei com pena que um deles havia quebrado: meus dedos saram do bolso
da blusa lambuzados de gema e clara. Mas restavam cinco, e resolvi cozinh-los.
       Para isso, armei uma fogueirinha de gravetos, entre duas pedras grandes,
pus um pouco de gua do cantil na tampa da marmita com os ovinhos dentro e
apoiei-a nas pedras. Depois fiquei longos minutos a tentar fazer fogo na ponta de
um pedacinho de papel da minha caderneta, concentrando sobre ele o calor de
um raio de sol atravs da lente do meu canivete. Pude enfim ver sair do papel
uma fumacinha, depois uma chama, que enfiei debaixo dos gravetos, e logo um
foguinho fazia ferver a gua na tampa da marmita, cozinhando o meu almoo.
Descasquei com cuidado os ovinhos e comi um por um. Estavam deliciosos. S
no comi a casca porque enganei a fome com o resto do chocolate. Como j
estivesse praticamente no fim, tive de lamber o papel prateado. Mais uma
pastilha de hortel, e estava finda a minha refeio.
       Antes de apagar o fogo, tive uma idia que logo pus em prtica. Joguei
nas chamas algumas folhas verdes, que comearam a fazer subir ao cu um
denso rolo de fumaa. Ento tirei a blusa, cobrindo com ela a fumaa e deixando
escapar um pouquinho de cada vez, como fazem os ndios, de maneira que
subissem no ar trs pontos, trs traos e trs pontos, que era o sinal de SOS em
cdigo Morse. L do acampamento os escoteiros certamente veriam no cu o
meu pedido de socorro. Depois apaguei o fogo e segui em frente.
       O chocolate me deu sede e descobri, desolado, que no tinha mais que um
gole de gua no cantil. Outra imperdovel distrao para um escoteiro: havia
apagado o fogo com a gua da tampa da marmita, em vez de despej-la de volta
no cantil. Tinha pensado que ela no serviria para beber, porque estava muito
quente... Nunca me senti to burro, ao descobrir a bobagem que havia feito.
       Mas Deus estava mesmo me protegendo: a mata foi rareando  medida
que eu avanava, e terminou num rio largo e caudaloso. gua  que no ia mais
me faltar. E na outra margem avistei um milharal cheio de espigas... Ali estava o
meu jantar! J tinha pensado em me valer de razes e frutos silvestres para matar
a fome, mas temia que fossem venenosos.
       Era preciso atravessar aquele rio, e s mesmo a nado.


TIREI toda a roupa, aproveitando para tomar um banho refrescante, e me distra
catando todos os carrapatos que encontrei no corpo. Depois fiz com roupas,
sapatos e tudo mais uma trouxinha, que amarrei na cabea com a corda, e fui
nadando bem devagarinho para que ela no se molhasse. A correnteza me
arrastava rio abaixo, mas ainda assim eu ia conseguindo atravessar, e at era
bom, pois me aproximava do milharal.




       Quando ganhei a outra margem, depois de descansar um pouco e vestir a
roupa, apanhei duas espigas, que descasquei e meti na marmita com gua do rio.
Usei para cozinh-las o mesmo processo que tinha usado com os ovinhos de
codorna. S que desta vez no havia mais sol, tive de empregar o processo dos
ndios, que era bem mais difcil: rolar um pauzinho entre as palmas das mos, de
maneira que a ponta se esfregasse noutro pauzinho at sair fogo.
       Desta vez me lembrei de jogar de volta a gua no cantil. Quando esfriasse,
serviria para beber, pois, alm do mais, tinha sido fervida e estava livre dos
micrbios.
       S ento me ocorreu que eu no deixara sinal de pista no outro lado do
rio. Meus companheiros, se estivessem me seguindo, no saberiam que eu o
havia atravessado.
       Como j estivesse escuro, fiquei por ali mesmo, no milharal, onde no
tinha mais perigo: era plantao feita por mo de homem, que denunciava haver
civilizao por perto. Fiz uma cama de palhas de milho e dormi, depois de me
regalar com as duas espigas que havia cozinhado e de beber a gua do cantil,
que j estava fria e gostosa.
       De manh acordei com o sol na minha cara. Depois de lavar o rosto no rio
e chupar uma pastilha de hortel, fui andando ao longo da margem, at encontrar
o que procurava: uma casinha de lavradores.
       Era um casal de jecas que no entenderam nada do que eu contava, como
se eu fosse um bicho raro surgido de repente na frente deles. Mas acabaram me
dando um pedao de broa de milho e falando numa estrada que passava ali
perto. A meu pedido, me ensinaram como chegar at l. Agradeci, me despedi
deles e parti.
       Achei a estrada, que era de terra, mas muito melhor andar nela que no
meio do mato. Logo passou um caminho e pedi uma carona. O motorista, um
preto muito bonzinho, me deu um pedao de rapadura e ouviu com admirao a
minha histria, enquanto seguamos em direo a Itabirito, levantando poeira.
Perguntou na estao onde era o acampamento dos escoteiros e fez questo de
me levar at l.
       Fui recebido e aclamado como um heri, em vez de ser castigado como
esperava: disseram que aquilo poderia acontecer com qualquer um. Fiquei
sabendo ento a aflio que meu desaparecimento tinha causado. A tropa inteira
passou aqueles dois dias  minha procura e ainda havia gente me procurando. A
patrulha do Lobo, comandada pelo Toninho, havia encontrado a cobra que eu
matara e visto no cu os meus sinais de fumaa. Seguiram as marcas que eu fora
deixando pelo caminho e ao chegar ao rio, concluram, inconsolveis, que eu
havia morrido afogado tentando atravess-lo.
       Meu irmo ficou desarvorado. Quando mais tarde nos reencontramos, em
meio  alegria geral, decidimos no contar nada em casa, para no afligir nossos
pais. Mas, como sempre acontece, eles acabaram sabendo, e papai achava graa,
pedia que eu narrasse a faanha para seus amigos.




       Naquela noite, depois de um excelente jantar, durante o Fogo do Conselho
tive de contar com detalhes a minha aventura. Todos se admiraram e os chefes,
impressionados, balanavam a cabea dizendo que se tudo aquilo que eu dizia
fosse verdade, ento eu merecia uma condecorao, talvez mesmo o Tapir de
Prata.
       E era tudo verdade -- juro que s acrescentei uma mentirinha: disse que
no tinha tido medo da ona que me fez subir na rvore.
                                                CAPTULO VI


O VALENTO DA MINHA ESCOLA



D
         EPOIS disso tive de enfrentar outra espcie de perigo: o de levar uma
         surra do valento da minha escola.
         O nome dele eu no me lembro, mas todo mundo na classe o chamava
de Birica. Era pelo menos uns dois anos mais velho que o resto da turma.
      A verdade  que os colegas tinham medo dele. Birica falava e os outros
baixavam as orelhas. Eu mais do que todos, pois era dos menores.
      Vai um dia o Birica resolve implicar comigo. Ele e outro menino,
conhecido como Jacar. No que o Jacar fosse forte feito o Birica: era mais ou
menos do meu tamanho. Tinha o queixo para a frente, de aparar goteira, e
quando abria a boca parecia um jacar -- da o apelido. Deste eu me lembro o
nome: Sinfrnio. Por isso mesmo ele preferia ser chamado de Jacar.
      Pois o Jacar, de quem ningum gostava (tinha fama de ladro, furtava
tudo que a gente esquecesse na carteira), andava sempre adulando o Birica, e
acabou querendo bancar tambm o valento. Do Jacar ningum tinha medo,
mas o Birica havia passado a proteg-lo, e ai de quem se metesse com ele! Um
dia o Tininho, s porque deu uma sardinha no Jacar, levou um tosto do Birica
que deu com ele na enfermaria, ficou sem poder andar direito uma semana. Mas
no contou para a diretora quem o tinha machucado. Era essa a lei entre ns:
ningum entregava ningum. E alm do mais aquilo era coisa  toa, vivamos
dando sardinha, tosto, cacholeta e coque uns nos outros.
      Para quem no sabe: sardinha  uma chicotada de raspo, com o dedo
indicador, em quem quer que ouse arrebitar o traseiro. Costuma doer de verdade,
quando pega de jeito. Tosto  uma joelhada de lado na coxa da vtima, tambm
di muito. Cacholeta  uma pancada na cabea de um infeliz, com as mos
presas uma na outra, depois de soprar entre elas como a ench-las de vento.
Costuma at tontear. O coque, ou cascudo,  a mesma coisa, s que com uma s
mo.
      Havia outras brincadeiras perversas ou mesmo perigosas, como a cama de
gato: enquanto um ficava de quatro atrs do distrado, outro o empurrava pela
frente, fazendo com que tropeasse e casse estatelado de costas no cho. Houve
mais de uma cabea quebrada em conseqncia dessa gracinha.
       Numa das brincadeiras, nunca cheguei a saber onde estava a graa: um
dos meninos estendia firmemente dois dedos da mo direita (o fura-bolos e o
pai-de-todos), para que outro menino, com os mesmos dedos, desferisse neles
uma pancada com toda fora; passava ento a ser a vez do outro, que fazia o
mesmo; ao fim de alguns minutos dessa distrao idiota, estavam ambos com os
dedos vermelhos e inchados, latejando de dor. Para qu? Para nada.
       Algumas eram brincadeiras inofensivas, como a gata parida: dois
meninos, sentados em cada extremidade do banco, iam apertando os do meio at
que no houvesse mais espao para ningum ficar sentado entre eles e, um a um,
fossem espirrando para fora.
       De outras brincadeiras, a vtima era a prpria professora. Como dona
Risoleta, por exemplo, que dava aula de religio.


MAGRICELA como a Olvia Palito, mulher do Popeye, parecia um galho seco
dentro do vestido escuro. Era antiptica e ranzinza. Usava culos de lentes
grossas: no enxergava direito, vivia confundindo um aluno com outro.
       A aula de religio no contava ponto nem influa na nossa mdia, mas a
diretora nos obrigava a freqentar.
       Um dia apareceu uma barata na sala de aula. Descobrimos ento que dona
Risoleta tinha verdadeiro horror de baratas: soltou um grito, apontou a bichinha
com o dedo trmulo e subiu na cadeira, pedindo que matssemos. Era uma
barata grande, daquelas cascudas, de salto alto
       A classe inteira se mobilizou para mat-la. Foi aquele alvoroo:
empurres, cotoveladas, pontaps, risos e gritaria, todos querendo atingi-la
primeiro. E a coitada feito barata tonta, escapando por entre nossas violentas
patadas no cho. At que, de repente, tive a sorte de dar com ela passando a
correr entre meus ps -- esmigalhei-a numa pisada s.
       Fui aclamado como heri, vejam s: heri por ter matado uma barata. At
dona Risoleta me agradeceu, trmula, descendo da cadeira e me dando um beijo
na testa. Esse beijo a turma no me perdoou, durante muito tempo fui vtima da
maior gozao: diziam que dona Risoleta estava querendo me namorar.
       Deste episdio nasceu uma brincadeira que passamos a fazer em toda aula
de religio, duas vezes por semana. Algum trazia uma barata viva dentro de
uma caixa de fsforos vazia, para soltar na saia de aula entre as carteiras, at que
um aluno denunciasse a sua presena. Quando no era a dona Risoleta que
soltava um gritinho:
       -- Uma barata!
s vezes mais de um menino trazia de casa para soltar na sala a sua barata
dentro da caixa de fsforos ou de uma latinha. Tnhamos de combinar antes,
pois se aparecessem muitas de uma vez, dona Risoleta acabava desconfiando.
       Um dia ela foi reclamar providncias da diretora, dizendo que o prdio era
velho, estava precisando de uma limpeza em regra, vivia cheio de baratas.
Naquele tempo no havia dedetizao, de modo que a diretora no tomou
providncia nenhuma, nunca tinha visto barata na escola, aquilo eram fricotes da
dona Risoleta.
       E a coisa ficou por isso mesmo, de vez em quando aparecendo uma
baratinha, para alegrar a aula de religio. Houve uma que subiu pela perna da
professora e foi se esconder debaixo da sua saia. A mulher deu um pulo de trs
metros de altura, se sacudindo toda, aos berros, como se estivesse possuda do
demnio, por pouco no se atirou pela janela.
       At que o Dico um dia esqueceu na carteira uma caixa de fsforos com a
barata dentro. Sem saber para que diabo aquele aluno havia de ter trazido
fsforos de casa, se todos ns ramos crianas, no fumvamos, dona Risoleta,
curiosa, abriu a caixa. A barata saltou em sua cara num vo aflito, largando
pedaos de asa no ar, e se refugiou nos seus cabelos. A coitada s faltou
desmaiar de susto. Saiu correndo feito doida com barata e tudo e foi nos
denunciar  diretora.
       O Dico acabou suspenso por uma semana, como responsvel por todas as
baratas que j tinham aparecido. Com isso, ficou sob ameaa de perder o ano,
por falta de freqncia.
       Em solidariedade a ele, resolvemos fazer greve, matando as aulas de
religio.
       Foi quando algum teve idia melhor para nos vingarmos:
       -- Vamos trazer para a sala outra coisa.
       -- Uma lagartixa -- sugeriu um.
       -- Um rato -- sugeriu outro.
       -- Um sapo -- sugeriu um terceiro.
       Conclumos que lagartixa no fazia mal a ningum, era capaz de no
assustar dona Risoleta. A menos que jogssemos uma pelo pescoo dela abaixo,
por dentro do vestido -- e todos riam, imaginando a cena. Durante o recreio as
conversas e conspiraes fervilhavam. Como e onde conseguir apanhar um rato
vivo e traz-lo para a escola sem que ningum visse? Acabamos preferindo a
idia do sapo, de que estava cheio o crrego do Leito, ali perto da escola. E no
prprio lago da Praa da Liberdade, onde eu morava, tinha vrios sapinhos, a
questo era conseguir pegar um.
       Mas a meninada era ativa: no dia seguinte mesmo o Tio, um crioulinho
de pele brilhante de to preta, trouxe, presa com um barbante, uma perereca
verde que era uma beleza. Todo mundo se juntou, querendo ver:
       -- Mostra ela para ns, Tio.
       -- Onde  que voc pegou?
       O negrinho ria, os dentes muito brancos:
       -- L perto de casa tem uma poro.
       E punha a perereca na palma da mo, para que todos vissem. Ela ficava
ali, encolhida, inchando e desinchando a barriga, olhos arregalados. De repente,
como se fosse de mola, dava um salto no ar em direo  cara de um. Todos se
espalhavam, assustados:
       -- Cuidado, que se ela mija no seu olho voc fica cego.
       --  s sapo que faz isso. Perereca no mija no.
       Se no fosse o Tio conter com mo firme o barbante que a prendia pela
cintura, ningum segurava a perereca. E ele a guardava no bolso do uniforme,
onde ela ficava se mexendo.
       A idia era bot-la dentro da bolsa que dona Risoleta deixava em cima da
mesa, enquanto dava aula. Num momento em que ela estava de costas,
escrevendo a lio no quadro-negro, o prprio Tio realizou a faanha: foi at
l com passo macio de gato, abriu a bolsa, desatou o barbante, jogou a perereca
dentro e tornou a fechar, voltando de mansinho para a sua carteira. Na vista de
todo mundo, menos da professora: tivemos de fazer fora para conter o riso.
       Dona Risoleta no abriu mais a bolsa at o fim da aula. Para no ficarmos
sem saber o que aconteceria, confiamos a dois colegas a misso de segui-la de
maneira disfarada.
       No precisaram ir muito longe. No dia seguinte ouvamos deles, na hora
do recreio, entre gargalhadas, o que havia acontecido. No bonde a caminho de
casa viram quando ela abriu a bolsa para tirar o dinheiro e pagar ao condutor. O
que saiu foi uma perereca, a pular adoidada sobre a cabea dos passageiros. Um
pandemnio: alguns at saltaram do bonde andando, a comear pelo prprio
condutor.
       Naquele mesmo dia dona Risoleta comunicou  diretora que no daria
mais aula para ns.


E HAVIA a aula de msica. Era tambm facultativa, mas amos todos de bom
grado, por ser muito divertida, pela baguna que fazamos. Quem ensinava era o
seu Asdrbal, o nico professor homem. Tinha uma careca brilhante, uma cara
de lua e um sorriso bom. A voz era de bartono. Constava que cantava pera, j
se havia apresentado no Teatro Municipal. Com os bracinhos curtos, balanando
o corpo rolio de Joo-Teimoso, regia o canto da molecada:
                    Viva o sol
                    Do cu de nossa terra
                    Vem surgindo
                    Atrs da linda serra.

       Dividia a turma em grupos, conforme o tom de voz, e cada grupo
comeava a cantar num momento diferente, para compor um coro de vrias
vozes desencontradas. O que terminava sempre em algazarra, pois fazamos
questo, para desespero dele, de cantar tudo errado, entrando fora de hora e de
compasso.
       Seu Asdrbal se sentava no piano, de costas para ns, tentando impor
alguma afinao ao nosso coro de miados de gato. O aluno mais perto da porta
se levantava, sorrateiro, e escapulia, fechando-a atrs de si, enquanto outro
tomava o seu lugar. O professor se voltava para fiscalizar a turma, que fingia
levar a srio a cantoria. E no dava por falta do fujo, e de outro, e mais outro, e
outro ainda...  medida que olhava, ia ficando intrigado, estranhando alguma
coisa, sem chegar a perceber que o nmero de alunos era cada vez menor. At
que, dos trinta, restavam apenas uns doze, e onze, dez... Nem assim o homem,
distrado l com a sua msica, dava pela coisa. At o dia em que sobraram
apenas seis e to logo seu Asdrbal se voltou para o piano, escaparam todos de
uma vez, em debandada silenciosa, porta afora, deixando a sala vazia.
       Havia tambm uma brincadeira, que era botar rabo nas professoras.
Brincadeira perigosa, que s vezes acabava mal. Era um rabo de papel, podia ser
de tiras de jornal ou mesmo de pano, como os dos papagaios que empinvamos.
Bastava amarr-lo num alfinete torto como um anzol e dependur-lo com
delicadeza na parte de trs da saia, quando a professora estivesse de costas.
       Um dia o menino escolhido para realizar a proeza foi um caolhinho de
nome Noraldino, que ficava uma fera quando o chamvamos de Zarolho. Pois o
Zarolho, talvez por no enxergar direito, deu foi uma boa alfinetada no traseiro
da dona Zelma, professora de desenho, uma gorducha, a quem chamvamos de
dona Zebra, por ser muito brava e viver dando reguada na mo da gente quando
desenhvamos. Dona Zebra soltou um relincho mesmo de zebra e se virou,
desferindo um tapa na cara do Zarolho, que no impulso saiu da sala para fora
catando cavaco e nunca mais voltou, pois no mesmo dia foi expulso da escola.


DE TAIS brincadeiras o Birica no participava. Dizia que eram coisas de
criana, ele tinha mais o que fazer. Na verdade a sua preocupao era com o que
havia de malicioso ou imoral na escola. No vou dizer que fosse dele tudo o que
aparecia escrito ou desenhado na parede das privadas, mas era quem procurava
iniciar os menores na prtica daquilo que os desenhos ou escritos representavam.
       At que um dia resolveu implicar comigo.
       Tnhamos um colega, o Tininho -- acho que j falei nele. O tal que levou
o tosto do Birica. O Tininho, o Dico (que foi suspenso por causa da barata) e eu
ramos muito amigos. Todo dia voltvamos juntos da escola e nos separvamos
na esquina da praa, no alto da Avenida Joo Pinheiro. Tininho ia para um lado,
eu para outro e o Dico seguia em frente. Na hora que cada um tomava seu rumo,
nossa despedida era muito tumultuada, pois estvamos jogando "dorme com
essa", ou seja, um tapinha, onde quer que acertasse, que cada um se empenhava
em ser o ltimo a dar:
       -- Dorme com essa! -- dizia um, encostando a mo no outro.
       -- Dorme com essa! -- reagia o outro, devolvendo o gesto.
       Ganhava quem fosse mais rpido, como no duelo entre o mocinho e o
bandido. E era aquela correria rua afora, um atrs do outro, para revidar.
       Sendo trs, a situao se complicava: s vezes o perseguidor de um
passava a ser perseguido pelo outro, e este pelo primeiro: ficvamos horas nessa
brincadeira, e mesmo chegando tarde em casa e ganhando pito, no desistamos:
era uma questo de honra no "dormir com essa".
       Naquele dia, o Tininho disse para o Dico, na hora do recreio, se
vangloriando:
       -- Voc ontem dormiu com essa.
       -- Hoje quem vai dormir  voc -- retrucou o Dico.
       O Jacar, que ouvia a conversa, meteu o bedelho sem ser chamado,
perguntando com ar de deboche:
       -- Que conversa de fresco  essa?
       O Tininho, que no gostava dele, como alis todo mundo, ficou ofendido
por ter sido chamado de fresco e respondeu mandando o nome da me. O Jacar
avanou contra ele. Dico logo saltou entre os dois para impedir:
       -- Covardia, ele  menor do que voc.
       -- Xingou minha me.
       -- Ento bate em mim primeiro.
       -- Vem no brao se voc  homem -- e Jacar olhou ao redor, j
procurando o Birica.
       Coloquei-me entre os dois e cuspi no cho, como mandava o cdigo:
       -- Quem for homem pisa aqui primeiro. Dico foi o primeiro a pisar no
cuspe. Mas o
       Tininho, enraivecido, no queria saber daquilo:
       -- Deixa ele comigo, Dico! Eu quebro a cara dele! -- e, pequenino diante
do outro, ainda assim tentava acertar com um soco a queixada do Jacar. O que
me deixou na maior admirao, pois o Tininho, bem menor do que eu,
demonstrava muito mais coragem: no fundo, eu tinha feito corpo mole e deixado
o Dico passar  frente para defend-lo, pois no estava com a menor vontade de
brigar com o Jacar.
       Foi quando se ouviu uma voz atrs de ns:
       -- Que  que est acontecendo a?
       Era o Birica, abrindo caminho entre a meninada que se juntara ao redor,
para apreciar a briga. Todos, reverentes, o deixaram se aproximar. Mos na
cintura, ele se colocou na minha frente:
       -- Provocando briga a, seu covarde?
       Mais tarde eu no saberia explicar como pde acontecer o que se passou
ento. Violncia no era comigo. Preferia resolver as coisas com calma, pois
quando a gente perde a cabea acaba fazendo bobagem e depois se arrepende. Se
me vi estimulando o Dico a brigar com o Jacar, foi s porque ele estava
defendendo o Tininho que, embora valente e brigo, era muito mais fraco, ia
levar uma surra daquelas. No fiz o mesmo que o Dico porque na verdade eu
no conseguia sentir raiva do Jacar a ponto de brigar, como no sentia de
ningum. Quando algum fazia alguma coisa contra mim, antes de ficar com
raiva eu pensava que ningum pode ser to ruim a ponto de desejar mal aos
outros. Se aconteceu  porque ele perdeu a cabea, ou ento porque no entende
direito as coisas,  burro ou ignorante -- se eu fosse assim tambm, em seu
lugar faria o mesmo.
       S que, por causa disso, no acho que possam me chamar de covarde.
       Pois eu, que seria capaz de tudo para evitar uma briga com o Jacar,
deixando de imitar o Dico e dando aos outros e at a mim mesmo a impresso de
estar com medo, no instante em que ouvi aquela palavra, no sei o que me deu:
como se outra pessoa  que tivesse reagido e eu vendo tudo do lado de fora.
       O que vi foi meu brao se erguer, como impulsionado por uma mola, e
desferir violenta bofetada na cara do Birica.
       O pasmo ao redor foi total. Ningum podia acreditar no que tinha visto.
Apanhados de surpresa, todos agora esperavam, num silncio respeitoso, o que
estava para acontecer.
       Birica chegou a cambalear, levando a mo ao rosto, que logo ficou
vermelho, com a marca dos meus dedos. Eu tinha batido mesmo com fora, uma
fora maior do que sabia ter. Vi que ele me olhava, atnito, um olhar
abobalhado de quem no sabe o que pensar. Instintivamente protegi o rosto com
os punhos fechados, me preparando para a briga e esperando a reao dele, que
seria de me massacrar. Me preparei at para morrer, quando ele, enorme diante
de mim, desfechasse o primeiro soco. Em vez disso, o que aconteceu no podia
ser mais surpreendente para mim e para todo mundo. Ele fez um gesto vago com
a mo no ar, e as palavras saram gaguejadas de sua boca:
       -- No precisa se ofender, Fernando. Eu falei brincando... Me desculpe.
       Naquele instante, por pouco o meu queixo no caiu de tanto espanto, no
ficou maior do que o do prprio Jacar, que assistia a tudo de boca aberta ali ao
lado: o Birica me pediu desculpa!
       Afinal entendi o que havia acontecido: Birica, o valento, aquele com
quem ningum podia, e que me chamara de covarde,  que estava acovardado!
Como a desejar fazer as pazes, ele agora esboava um gesto de quem queria mas
no ousava botar o brao no meu ombro:
       -- Eu falei brincando -- repetiu, e tentou sorrir.
       Daquele dia em diante, no passei a ser o valento da escola, como seria
de esperar -- mas ningum mais respeitou a valentia do Birica.
                                                CAPTULO VII


O MENINO NO ESPELHO



P
        OUCO tempo depois eu iria viver uma das experincias mais fantsticas
        da minha vida.
        Tudo comeou com aquela mquina fotogrfica, marca Agfa, em forma
de caixotinho. Gerson no deixava que ningum pusesse a mo nela, a no ser
quando ele prprio queria ser fotografado. Ento contava seis passos e ia postar-
se diante da mquina, enquanto algum, a seu pedido, de costas para o sol, com
o cuidado de quem segura um alapo com passarinho dentro, apenas apertava o
boto. Quase sempre aparecia na foto, alm do fotografado, a sombra comprida
de quem batia a chapa.
      As cmeras fotogrficas eram verdadeira preciosidade, e quem tinha uma,
como o Gerson, despertava inveja em todo mundo.
      Um dia ele me disse que ia fazer uma experincia. Mandou que eu ficasse
junto ao muro branco do quintal, como se estivesse conversando com algum.
Depois de bater a foto, fez com que eu passasse para o lugar desse algum, e
sem rodar o filme tornou a fotografar.
      Revelada a foto, veio me mostrar o resultado, me enchendo de assombro:
um retrato em que eu aparecia duas vezes, como se fosse outra pessoa,
conversando comigo mesmo!
      Tenho at hoje essa foto, que deu margem a tantas fantasias, quando eu
era menino: ficava a contempl-la, fascinado, pensando como seria bom se
realmente existisse uma pessoa igual a mim.
      Minha aspirao naquela poca era esta: encontrar um ssia. No pensava
em outra coisa, desde que assisti a um filme em que o ator fazia dois papis: vai
passando por uma rua e de repente esbarra num homem absolutamente igual a
ele. Os dois se olham, espantados. S que um era detetive, o outro era bandido, o
que acabava criando uma grande confuso.
      Mais tarde fiquei sabendo que o truque era o mesmo que o Gerson havia
usado com a sua mquina de retratos: expor duas vezes o mesmo filme.
      A partir de ento, passei a procurar um ssia. Onde quer que eu fosse e
houvesse outros meninos como eu -- na escola, no circo, no cinema, no campo
de futebol -- buscava encontrar algum parecido comigo. E procurava com
tanta intensidade, com tamanha certeza de encontrar, que no tinha dvida
alguma: mais cedo ou mais tarde esbarraria com um, como o detetive naquela
fita.
       S no poderia jamais imaginar que seria da maneira como um dia
aconteceu.
       Nas minhas buscas, no deixei de encontrar meninos bastante parecidos
comigo. Na associao de escoteiros havia um, chamado Luisinho, que era a
minha cara, cuspida e escarrada. Mas s de longe: se a gente observasse de
perto, acabava descobrindo uma poro de diferenas. Ele era um pouquinho
mais baixo do que eu, meio dentuo e tinha os cabelos mais claros. Sua voz
tambm era diferente da minha, fina e esganiada, e ao falar ele tinha o hbito,
que eu no tinha, de franzir a cara como quem est com dor de barriga. Enfim:
era completamente diferente de mim.
       Mesmo os gmeos que eu conhecia no eram l to iguais como se dizia.
Na nossa classe havia dois irmos gmeos, o Belelu e o Catatau. Eram
parecidssimos, a ponto de ser confundidos pela professora. Mas se a gente
reparasse bem, descobria que um tinha o rosto mais fino que o outro, no sei se
o Belelu ou o Catatau, e um tinha uma berruga no queixo que o outro no tinha,
no sei se o Catatau ou o Belelu. De qualquer maneira, tivesse eu um irmo
gmeo como eles, e j me daria por muito satisfeito.


POR que diabo eu queria encontrar algum igual a mim?  o que ficava
pensando, a olhar a minha prpria figura refletida no espelho. Eu no achava
graa nenhuma em mim, confesso que desde ento eu j no era o meu tipo. Mas
era comigo mesmo que eu tinha de viver e, neste caso, um menino feito aquele
ali diante de mim  que eu gostaria de encontrar, sem tirar nem pr. Um menino
que, em tudo e por tudo, fosse absolutamente igual a mim -- porque do
contrrio no tinha graa. Que falasse como eu, se vestisse como eu, andasse
como eu, pensasse e sentisse como eu. Juntos, ns dois seramos capazes de
tudo, das melhores brincadeiras, e at mesmo conquistar o mundo.
       E ficava horas me observando, fazendo caretas e gatimonhas para a minha
figura, falando comigo mesmo como se fosse outra pessoa:
       -- Agora, por que voc no cala a boca e escuta o que eu estou falando?
Por que tem de ficar me imitando, repetindo tudo que eu fao?
       Levantava a perna, e ele levantava tambm, ao mesmo tempo. Abria os
braos, e ele fazia o mesmo. Cocava a orelha, e ele tambm.
       Mas o que mais me intrigava era a nica diferena entre ns dois. Sim,
porque um dia descobri, com pasmo, que enquanto eu levantava a perna
esquerda, ele levantava a direita; enquanto eu cocava a orelha direita, ele cocava
a esquerda. Reparando bem, descobria outras diferenas. O escudo da escola,
por exemplo, que eu trazia colado no bolsinho esquerdo do uniforme, na blusa
dele era no direito.
       Para testar, coloco a mo direita espalmada sobre o espelho. Como era de
esperar, ele ao mesmo tempo vem com a sua mo esquerda, encostando-a na
minha. Sorrio para ele e ele para mim. Mais do que nunca me vem a sensao de
que  algum idntico a mim que est ali dentro do espelho, se divertindo em me
imitar. Chego a ter a impresso de sentir o calor da palma da mo dele contra a
minha. Fico srio, a imaginar o que aconteceria se isso fosse verdade. Quando
volto a olh-lo no rosto, vejo assombrado que ele continua a sorrir. Como, se
agora estou absolutamente srio?
       Um calafrio me corre pela espinha, arrepiando a pele: h algum vivo
dentro do espelho! Um outro eu, o meu duplo, realmente existe! No 
imaginao, pois ele ainda est sorrindo, e sinto o contato de sua mo na minha,
seus dedos aos poucos entrelaarem os meus.
       Puxo a mo com cuidado, descolando-a do espelho. Em vez da outra mo
se afastar, ela vem para fora, presa  minha. Afasto-me um passo, sempre a
puxar a figura do espelho, at que ela se destaque de todo, j dentro do meu
quarto, e fique  minha frente, palpvel, de carne e osso, como outro menino
exatamente igual a mim.
       -- Voc tambm se chama Fernando? -- pergunto, mal conseguindo
acreditar nos meus olhos.
       -- Odnanref -- responde ele, e era como se eu prprio tivesse falado: sua
voz era igual  minha.
       -- Odnanref?
       Sim, Odnanref. Fernando de trs para diante. Era em tudo semelhante a
mim, menos em relao  direita e  esquerda, que nele eram ao contrrio, sendo
natural, pois, que seu nome, isto , o meu, fosse ao contrrio tambm. Por uma
coincidncia, Odnanref era o meu nome de guerra, na sociedade secreta Olho de
Gato.
       -- Por isso mesmo -- confirmou Odnanref, dando-me um tapinha nas
costas e rindo, feliz: -- Foi voc que me desencantou, adotando o meu nome.
Seno eu jamais teria vindo, pois a lei do mundo dos espelhos probe
terminantemente que a gente venha ao mundo de vocs. A menos que algum
consiga desvendar o nosso encanto. O meu era esse, e voc adivinhou. Eu s
estava esperando que voc me puxasse, como acabou de fazer. O contrrio 
possvel, como aconteceu com Alice, que passou para o lado de dentro do
espelho e foi nos visitar. Tambm, at hoje foi a nica a realizar essa proeza.
       Depois de esfregar os olhos e me certificar de que no estava sonhando,
voltei-me para o espelho, procurando ver nele a minha figura refletida. Se visse,
seria capaz de retir-la tambm? E quantas vezes isso aconteceria, para formar
uma verdadeira legio de meninos iguais a mim? Mas simplesmente no vi
ningum no espelho, como aconteceu quando fiquei invisvel.
      No espelho eu via apenas refletidos os mveis do quarto atrs de mim. E a
porta de entrada, que acabava de se abrir para o Toninho entrar.
      Foi ele aparecer e Odnanref de um salto se agachou rapidamente,
escondendo-se atrs da minha cama.
      -- Que  isso, Fernando? Falando sozinho? -- estranhou meu irmo.
      Disfarcei como pude, at que ele sasse do quarto. O meu ssia
reapareceu, com um suspiro de alvio:
      -- Puxa, por pouco ele no me v! Precisamos tomar cuidado e combinar
umas coisas, para que isso no torne a acontecer.


DESLUMBRADO com a perspectiva de ter algum igual a mim, como um
perfeito irmo gmeo, eu no imaginava as dificuldades que iria enfrentar. A
falta de minha imagem no espelho, por exemplo, era uma delas: me criava
problemas para pentear os cabelos ou escovar os dentes sem poder me ver.
       Combinamos que, a partir de ento, ele me substituiria quando eu
quisesse, mas jamais deveramos ser vistos juntos. Ningum poderia desconfiar
de nossa existncia dupla, pois com isso se acabaria o encanto, significando o
seu imediato regresso, para todo o sempre, ao interior do espelho.
       Em compensao, ele me revelou uma surpresa a mais, como se fosse
pouco o milagre de sermos dois: sempre que eu quisesse, poderia ver, ouvir,
pensar e sentir tudo o que ele via, ouvia, pensava e sentia. Se ele comesse um
doce, por exemplo, eu podia sentir o gosto; se achasse graa em alguma coisa,
eu podia rir, mesmo que estivesse a quilmetros de distncia. O importante 
que s se dava quando eu quisesse: das coisas ruins ou simplesmente sem graa
eu me dispensaria de tomar conhecimento.
       O que significava que ele poderia tomar remdio em meu lugar. E assistir
s aulas mais cacetes (para mim eram quase todas), sem que eu deixasse de
aprender o que nelas se ensinasse. Poderia at mesmo fazer provas para mim,
enquanto eu ia empinar papagaio, pegar passarinho, jogar pio ou bola de gude.
       E assim foi, durante algum tempo. Nunca me diverti tanto. S que eu
tinha de tomar muito cuidado para no trair o meu segredo. s vezes me distraia
e minha me surgia no alto da escada da cozinha:
       -- Uai, Fernando, como  que voc j est a embaixo no quintal, se ainda
agora te vi l no seu quarto? Por onde voc desceu?
       Passava outros apertos, como o da blusa do uniforme de Odnanref, que
era ao contrrio, o escudo do lado oposto. Tnhamos de trocar de blusa todo dia
que ele ia  aula em meu lugar. At o cabelo criou problemas: eu partia do lado
esquerdo e ele do lado direito. Tivemos de acabar ambos partindo ao meio.
       Pois um dia eu  que acabei por distrao indo  aula com a blusa dele. A
professora percebeu o bolso do lado direito, tive de inventar uma histria
complicada para explicar aquilo: um colega me havia arrancado o bolso numa
briga e a costureira pregou do lado errado... No sei se ela acreditou. Mas o pior
 que Odnanref era canhoto, e quanto a isto no podamos fazer nada. Quando
ele ia almoar com minha famlia, para que eu pudesse ficar vadiando na rua, era
difcil disfarar, pois no sabia segurar o garfo com a mo direita. E na escola
era pior ainda, j que s escrevia com a mo esquerda. Tive de inventar que eu
estava treinando para usar ambas as mos, tinha jeito com as duas, tanto fazia
usar uma ou outra. E as pessoas grandes ficavam admiradas, dizendo que nunca
haviam percebido que eu era ambidestro. Mais uma palavra nova que eu
aprendia.
       Odnanref me revelava verdadeiras maravilhas. Conhecia coisas do outro
mundo. Me contou que existe vida em outros planetas, em milhes deles, com
tudo igual  vida na Terra, reproduo exata de tudo que aqui acontece, as
mesmas pessoas, os mesmos pases, os mesmos problemas. Que no mundo dos
espelhos, de onde ele viera, era possvel viajar para o passado, correr os sculos
at o princpio dos tempos e a criao do universo. Ou ir para o futuro, saber o
que aconteceria de hoje at o final dos tempos. E mais -- ele dizia com a sua
voz igualzinha  minha:
       -- Todo mundo tem na vida uma oportunidade de ser dois. Nos momentos
de coragem, por exemplo, em que a pessoa faz coisas que se julgava incapaz. Os
atos de herosmo, nos instantes de perigo, quando a gente  capaz de pular um
muro ou subir numa rvore que normalmente seria impossvel de conseguir,
quem voc pensa que est fazendo tudo isso seno o outro?
       Aquela tinha sido a minha oportunidade, jamais teria igual.
       E viveramos felizes um com o outro, desde que ningum soubesse, mas
um dia botei tudo a perder.


FOI num sbado -- me lembro bem. Tinha chovido muito, e ns ficramos em
casa, brincando no quarto, distrados -- pois nos bastvamos em nossas
brincadeiras, e nos completvamos, no precisando de mais ningum para que a
vida fosse uma fonte permanente de alegria e distrao. Eu estava sentado no
cho, colando umas figurinhas num lbum e Odnanref, de p, junto ao armrio
(a figura dele,  lgico, no se refletia no espelho), tentando consertar para mim
um automovinho de corda. Foi quando minha me me chamou para tomar o
remdio (um fortifcante, pois achava que eu andava fraquinho).  claro que
pedi ao Odnanref para ir em meu lugar, e ele foi de bom grado.
       Eu esquecera de trancar a porta do quarto e de sbito o Toninho entrou.
Quando me viu sentado ali no cho, arregalou os olhos e quase caiu sentado
tambm:
       -- Como? Se voc passou por mim neste segundo ali no corredor?
       -- Voc est  maluco -- tentei disfarar, o pensamento girando rpido na
cabea, em busca de uma explicao, antes que fosse tarde demais. Naquele
instante Odnanref, j tendo tomado o remdio que minha me lhe havia dado,
voltou calmamente para o quarto.
       Toninho se virou e viu quando ele surgiu na porta. Ficou olhando para ele,
depois para mim, novamente para ele, com os olhos deste tamanho. De repente
soltou um berro e precipitou-se porta afora, atropelando o meu ssia e atirando-o
ao cho. Dei um pulo e ajudei-o a se levantar. Depois tranquei a porta por
dentro, ofegante, a ouvir a gritaria do Toninho l fora, nos denunciando a todo
mundo.
       -- E agora? -- perguntei, ansioso.
       -- No h nada a fazer -- e ele me abraou: -- Estou descoberto, tenho
de ir embora.
       -- s vezes ainda h jeito -- disse eu, comovido, retribuindo o abrao: --
No me deixe sozinho, no v embora, por favor.
       E procurava cont-lo. Mas ele se desembaraava delicadamente de mim:
       -- Tinha de acontecer, mais cedo ou mais tarde. At que fomos de sorte,
fiquei tanto tempo... H pessoas que no conseguem seno alguns segundos.
Outras no conseguem nunca... Adeus, Fernando, meu irmo. Feche os olhos,
por favor.
       -- Adeus, Odnanref -- murmurei, quase chorando.
       Fechei os olhos, como ele pedira. Quando tornei a abri-los, vi por entre as
lgrimas a minha figura refletida no espelho, como sempre. Ele se fora para
nunca mais.
       Ouvi que batiam na porta com insistncia:
       -- Fernando, abre a!
       Era meu pai, minha me, o Gerson e at a Alzira, convocados pelo
Toninho para testemunhar o fenmeno. Mal destranquei a fechadura, eles
irromperam quarto adentro num tropel, como se fossem salvar o pai da forca:
       -- Onde? Onde est o Fernando?
       -- Estou aqui -- respondi, admirado: -- No esto me vendo?
       -- O outro Fernando! O outro Fernando!
       -- Que outro?
       Olhavam ao redor, como se estivessem procurando algum. No
esqueceram de espiar debaixo da cama ou dentro do armrio. Depois se
voltaram para o Toninho:
       -- Acho que voc est ficando maluco -- disse o Gerson.
       -- Nesta casa ultimamente andam acontecendo coisas muito malucas --
disse mame.
      -- Sempre aconteceram -- disse papai.
      E saram todos. Mais tarde, ao jantar, quando comentaram o episdio, no
deixaram de gracejar com o Toninho, j descrentes do que ele insistia em dizer
que era a pura verdade: vira dois Fernandos, um dentro do quarto e o outro
entrando, depois de tomar o remdio.
      -- Acho que voc  que anda precisando de remdio -- comentei, mais
calmo: -- Est sofrendo da vista.
      De volta ao quarto, fui levar uma palavra de tranqilidade para o meu
amigo no espelho:
      -- Tudo bem -- e sorri para ele.
      Mas ele se limitou a dizer ao mesmo tempo:
      -- Tudo bem -- e sorriu para mim.
                                              CAPTULO VIII


MINHA GLORIA DE CAMPEO



N
         ASCI   no dia 12 de outubro, aniversrio do Gerson, que estava fazendo
          oito anos. Meu irmo tinha pedido de presente uma surpresa, e surpresa
          ele teve: nasci em casa, como acontecia naquela poca, e minha me
mandou botar o beb na cama do Gerson, como presente de aniversrio.
       Quando ele acordou e deu comigo a seu lado, ficou na maior alegria. Foi
um custo para se convencer de que eu no era um brinquedo dele, que pudesse
ficar carregando pela casa de c para l o tempo todo.
       Dai o carinho com que ele me tratou a vida toda. Embora o Toninho, que
era s dois anos mais velho, sempre tenha sido tambm muito meu amigo, e
fosse o meu companheiro de quarto, o Gerson, pelo fato de j ser para mim um
homem com seus dezesseis anos, me despertava uma grande fascinao; eu
queria ser como ele quando crescesse.
       Diga-se de passagem que, ao completar oito anos, tambm pedi  minha
me um beb. Ela achou muita graa, botando na minha cama um boneco, o que
me deixou com muita raiva ao acordar, pois alm do mais eu no era menina
para ganhar um presente daqueles.
       Estou contando tudo isto para chegar a um episdio de minha infncia que
devo ao Gerson, e relacionado a futebol, que sempre foi a sua grande paixo.
At hoje, tantos anos passados, com filhos crescidos e cheio de netos, ainda joga
futebol de salo e tem a parede do seu quarto decorada com retratos de
jogadores.
       Quando garotinho eu ia v-lo jogar no gol do Amrica, que era o time de
nossa devoo -- primeiro nos juvenis, depois no time titular, do qual era
reserva, apesar de sua pouca idade.
       At ento, o futebol vinha constituindo para mim uma srie de sucessivos
fracassos. Para comear, na escola eu sempre ficava por ltimo na escolha dos
times que os dois melhores faziam, alternadamente, depois de tirarem par-ou-
mpar para saber quem comeava. No dia em que um dos que escolhiam me
apontou por distrao antes do fim, os j escolhidos protestaram:
       -- Ah, ele no!
       Tinha de me conformar com o fato de ningum me querer no seu time.
Procurava me consolar com a idia de que me rejeitavam no por jogar mal, mas
por ser dos menores. No podia nem apelar para a ignorncia, como fazia o
Bolo, um gorducho que mal conseguia correr em campo, mas que ia avisando
logo, por ser dono da bola:
       -- Ou eu jogo, ou ningum joga.
       No que eu fosse assim to ruim, dos piores. Conseguia controlar a bola
que me passavam (quando passavam) jogando em geral (quando deixavam) na
ponta direita, por ser pequenino mas veloz. Conseguia tambm lev-la de vez
em quando  linha de fundo, como fazem os pontas mais famosos. S que
acabava saindo pela linha de fundo com bola e tudo, pois me esquecia de
centrar.
      Eu era muito distrado, eis o problema. Ficava prestando ateno em
coisas que nada tinham com o jogo: um carro que passava na rua, um passarinho
pousado na rvore, um avio no cu... De repente era aquela gritaria dos outros,
me incentivando:
      -- Vai nela! Vai nela!
      Era comigo? Eu caa das nuvens, procurando ir na bola, mas nem mesmo
sabia onde ela estava: quando a descobria, o zagueiro adversrio j se havia
antecipado, afastando o perigo, enquanto os companheiros reclamavam, pedindo
minha substituio.
      O resultado  que eu era um peso morto nas raras peladas que me
deixavam disputar, tanto na escola como no campinho daquele lote vazio perto
de casa.
      Um dia experimentei jogar de goleiro, e o resultado foi ainda mais
desastrado: engoli cinco gols, sendo trs contra, feitos por mim mesmo, na hora
da confuso (dois de cabea e um com o traseiro).


TAMANHA era a minha frustrao por causa do futebol, que resolvi treinar
sozinho, para ver se melhorava o meu rendimento no jogo. Ia para o campinho
de pelada quando j no havia ningum l, e ficava horas a me distrair com uma
bola que meu pai me dera, a meu pedido. (No me ocorreu apelar, como o
Bolo, para o fato de agora tambm ser dono da bola.) Tentava, sem resultado,
matar na cabea, controlar no peito ou no joelho, sustentar a bola no ar fazendo
embaixada, como via os grandes jogadores fazerem. Conseguia no mximo dois
ou trs lances e ela rolava logo para longe de mim, resvalava no meu p e o
chute em gol saa espirrado, sem direo. Em geral eu voltava para casa coberto
de suor do esforo feito e de desnimo com o resultado obtido.
       Entardecia, quando um dia, sentado no tijolo que marcava um dos lados
do gol, pensando em desistir, levantei o rosto, sentindo que algum me
observava de longe. Era o Gerson. Ele se aproximou:
       -- No  nada disso. Est tudo errado. Vou te ensinar como se faz.
       Disse que estava ali havia muito tempo, acompanhando o meu esforo.
Pegou a bola e mostrou como eu devia fazer para ergu-la do cho com o p:
uma puxadinha por cima e depois enfiar de leve o bico da chuteira por debaixo.
O chute devia ser com o peito do p e no com a ponta, nas bolas altas; nas
rasteiras, com o p meio de lado:
       -- Assim, quer ver?
       E ele chutava com perfeio, a bola ia direitinho ao gol. Depois me
mostrou como se dava cabeada: com a testa e no com o alto da cabea. Por
isso  que eu chegava sempre em casa com ela doendo. E a testa  que ia na
bola, no a bola na testa.
       Naquele dia e nos que se seguiram me ensinou uma poro de coisas
assim, que eu ia aprendendo lentamente, para depois tentar praticar sozinho. E
olha que ele jogava era no gol.
       No adiantou grande coisa. Na escola eu continuava o ltimo a ser
escolhido e me deixavam entrar no time s para fazer nmero, quando no havia
ningum mais para complet-lo. Cheguei a passar pela humilhao de exigirem
que eu jogasse o primeiro tempo num e o segundo tempo noutro, para
compensar a desvantagem de me terem como jogador.
       No que este ou aquele j no tivesse percebido em mim algum progresso.
Mas haviam decidido que eu era ruim de bola e no mudariam nunca de opinio.
Alm do mais, eu continuava sem conseguir acompanhar o tempo todo o
desenrolar do jogo: qualquer coisa me distraia a ateno.
       Houve um dia em que, final de partida, a bola veio rolando at meus ps.
Eu estava praticamente sozinho diante do gol e em posio legal, o goleiro j
batido, cado ao cho, era s chutar. Em vez disso, pensando que no estava
valendo, que o juiz j tinha apitado ou qualquer coisa assim, peguei a bola com a
mo, me voltei para os companheiros que, na maior gritaria, insistiam comigo
que chutasse, e perguntei ingenuamente:
       -- Que foi que aconteceu?
       Logo o goleiro adversrio se aproximou, e me tomou a bola das mos,
dizendo em tom de zombaria:
       -- Com licena, artilheiro.
       Perdemos o jogo por causa disso. Naquele dia voltei para casa chorando.


ACABEI desistindo de jogar e me limitando a ir com o Gerson e o Toninho
assistir s grandes partidas. Mas a minha mgoa continuava. Eu me sentia um
fracassado na vida, por no dar certo no futebol.
       Pois foi exatamente no dia 12 de outubro, quando completei oito anos,
que se deu a minha reabilitao, de maneira to fantstica que eu mesmo no
acreditaria se me contassem. Como j disse, foi graas ao Gerson, que tambm
fazia anos naquele dia.
       Era o jogo de deciso final do Campeonato Mineiro: Atltico contra
Amrica. Torcamos apaixonadamente pelo Amrica, no s por ser o time de
nossa predileo mas, com mais razo ainda, porque o prprio Gerson ia jogar
de goleiro, em substituio ao famoso Princesa, que estava contundido. Apesar
de seus dezesseis anos, e jogando ainda nos juvenis, era muito desenvolvido
para a idade, podendo perfeitamente passar por homem feito, como os demais do
primeiro time. A formao do Amrica, segundo o esquema dois-trs-cinco que
vigorava na poca, era a seguinte:

                            GERSON
                      CHICO PRETO NEGRO
                   RAFAEL PIMENTO BEZERRA
               JAIR JAVERT JORIV JACY JICO LEITE

       A linha, como se v, era toda ela composta de nomes comeados com J
(inclusive o ponta esquerda, Chico Leite, que por causa disso passou a ser Jico
Leite). Quem no acredita, que consulte os jornais da poca.
       O time do Atltico se compunha dos seguintes craques:

                           KAFUNGA
                        NARIZ MAURCIO
                     MAURO BRANT CAIEIRA
                CHAFIR SAID OIRAM JAIRO CUNHA

       Oiram era o grande centro-avante Mrio de Castro, cujo pai no admitia
que ele fosse jogador de futebol, e por isso figurava com seu primeiro nome de
trs para diante.
       Gerson me reservou uma primeira surpresa: tinha me arranjado um
uniforme completo do time do Amrica, para que eu entrasse no campo como
mascote.
       S o fato de sair do vestirio em meio aos jogadores de verdade j me
enchia de emoo. Sentia-me ainda mais pequenino no meio daqueles
homenzes peitudos e de pernas cabeludas que invadiam o campo como uma
manada de bfalos, sob os delirantes aplausos da torcida, que lotava
completamente o estdio do Amrica. Gerson me conduzia pela mo, quando
nos alinhamos para fazer o cumprimento de praxe  assistncia. Depois os
jogadores se espalharam, batendo bola e fazendo exerccios de aquecimento.
Fiquei por ali, ciscando entre um e outro, a viver a minha grande emoo.
       Mas o meu maior momento de glria ainda estava para chegar.
       O juiz convocou os jogadores, que se dispuseram a dar incio  partida,
colocando-se cada um em seu lugar no campo. Gerson foi para o gol, depois de
me deixar em companhia do treinador no banco dos reservas.
       Foi dada a sada. Logo se viu que iramos assistir a uma peleja das mais
emocionantes. Os ataques se sucediam de lado a lado. O Amrica pressionava e
Kafunga, num de seus grandes dias, fazia defesas prodigiosas. Gerson no
deixava por menos. Os contra-ataques do Atltico encontravam no meu irmo
uma barreira intransponvel:
       -- Gerson no est deixando passar nem pensamento! -- diziam os
reservas, a meu lado, entusiasmados.
       Os lances violentos tambm se sucediam. A todo momento um jogador
era substitudo por contuso. O primeiro tempo terminou empatado de zero a
zero.
       Logo ao incio do segundo tempo, o juiz apitou contra o Amrica um
pnalti que nossa torcida reclamava, revoltada, jamais ter existido. Cobrada a
penalidade mxima, Gerson no teve como segurar, apesar de conseguir tocar os
dedos na bola, numa ponte magistral. Um a zero contra ns.
       Por mais que o Amrica reagisse, no conseguia igualar o marcador.
Faltavam quinze minutos para o trmino da partida, quando enfim uma bola
cruzada de Javert para a rea foi dar na cabea de Jacy, que emendou de
primeira, sem que Kafunga nada pudesse fazer. Um gol de susto, como se
costuma dizer. Estava empatada a peleja.
       O tempo passando, as duas equipes buscando ferozmente o desempate.
Aos cinco minutos do trmino da partida, houve uma interrupo, no entendi
bem por qu, e, pelo jeito, a torcida ainda menos, pois prorrompeu na maior
gritaria. Ao reiniciar-se o jogo, a linha americana esboa um perigoso ataque
pela direita. De posse da bola, Jico Leite penetra a defesa contrria, mas se
choca violentamente com Nariz e rola no cho, contundido, botando sangue pelo
nariz.
       Pnico nas hostes americanas: todos os reservas j haviam entrado em
campo, no sobrara ningum para substituies, que fazer? Segundo as regras
daquele tempo, time nenhum podia jogar desfalcado, sob pena de ser eliminado
do campeonato.
       Disputa interrompida, o jogador machucado  retirado na maa. Gerson
vai confabular com o juiz, gesticula, depois vem correndo at o banco dos
reservas onde me encontro, em companhia do treinador e do massagista. Fala
qualquer coisa ao ouvido do treinador, me apontando, e este se volta para mim,
com ar grave:
       -- Voc vai ter de entrar, Fernando. No tem mais ningum. Voc  a
nossa ltima esperana.
       No vacilei: alm do mais, era justamente a ponta direita, minha posio
predileta! Pois se o Amrica precisava de mim para completar o time, contassem
comigo, era uma questo de honra. Apenas mais cinco minutos -- mas futebol,
como se sabe,  uma caixa de surpresas. Em cinco minutos tudo pode acontecer.
       E aconteceu. Mal tive tempo de fazer o aquecimento. Como se fosse a
coisa mais natural do mundo, entrei em campo. A aclamao da assistncia foi
ensurdecedora -- o que no chegou a me perturbar: tinha de me concentrar na
misso que me cabia. Gerson havia me ensinado muito bem o que devia fazer.
      Joriv deu a sada do meio do campo, cumprindo ordem do juiz: atrasou
para Pimento, que adiantou para Jacy. Caieira rouba-lhe a bola, passando para
Chafir, que avanou perigosamente, Gerson se preparou para defender, Chico
Preto aliviou, pondo para fora num chuto.




       Ao contrrio do que fazia nas peladas de meninos, eu procurava
acompanhar, lance por lance, o desenrolar da disputa, em seus instantes finais.
Chafir fez a cobrana da lateral, dando de presente para Negro, que, sem perda
de tempo, acionou Bezerra. Quando eu, estrategicamente colocado no setor
direito do gramado, como me competia, j pensava que no daria tempo sequer
de intervir numa s jogada, eis que Bezerra faz com que a bola venha rolando
at mim.
       Depois de domin-la numa manobra que arranou aplausos da torcida, e
tendo Jacy na cobertura, driblei Nariz, deixando-o estatelado de surpresa, e
tabelei com meu companheiro. Este passou ao Joriv, enquanto eu me deslocava
para receb-la de volta. Ento disparei num pique, sob o delrio da assistncia, e
l fui eu com minhas perninhas curtas no meio daqueles cavales, driblei um,
outro, deixei para trs a defesa adversria. E me vi frente a frente com o goleiro.
Kafunga abria os braos gigantescos, achei que queria me pegar e no  bola.
Fiz que chutava, como se fosse encobri-lo, ele pulou. Ento passei com bola e
tudo por entre as pernas dele e marquei o gol da vitria.
      Foi aquela ovao, a torcida delirava. Logo em seguida soou o apito final
e meus companheiros de equipe correram para me abraar e carregar em triunfo.
O que para eles era fcil, dado o meu tamaninho. E assim demos a volta
olmpica, sagrados campees.
                                                 CAPTULO VI

NAS GARRAS DO PRIMEIRO AMOR



U
        M DIA     perguntei  Mariana:
          -- Voc quer ser minha namorada?
          A sociedade secreta Olho de Gato havia deixado de se reunir, mas
Mariana e eu continuvamos nos encontrando, apenas como amigos. Os outros
dois agentes secretos continuavam tambm por ali, prontos para entrar em ao,
quando convocados: Hindemburgo com as suas cachorrices, e Pastoff sempre
acoelhado no fundo do quintal.
       A resposta de Mariana me deixou estatelado de surpresa:
       -- Voc ainda  criana.
       -- E da? -- gaguejei, despeitado: -- Voc tambm no ?
       Ela olhou para um lado e para outro, vendo se no havia ningum por
perto, e aproximou a boca do meu ouvido:
       -- Eu j tenho namorado.
       Minha surpresa foi ainda maior. Tentei disfarar com um gracejo:
       -- No vai me dizer que  o Pastoff. Mariana tinha um carinho especial
pelo coelho. Mas ela continuou sria:
       -- Se voc jura que no conta para ningum, eu digo quem .
       Jurei com os dedos em cruz.
       -- Ento espera um instante.
       Foi at sua casa e em pouco voltava a correr, trazendo um recorte de
revista:
       -- Olha aqui ele.
       Era o retrato de um famoso artista de cinema, nem me lembro qual.
       -- Ora, isso a no  namorado nenhum -- comentei, com desdm, mas
no fundo aliviado: -- Eu digo  namorado mesmo. Gente de verdade, como eu.
       Ainda me sentia ferido no meu amor-prprio, desprezado em favor de um
rival inexistente:
       -- Esse no passa de um pedao de papel. Ela no se abalou:
       -- Pois fique sabendo que  a ele que eu amo -- e beijou o retrato com
fervor diante de meus olhos. Depois fez meia-volta e correu para dentro de casa,
recorte apertado contra o peito.
MAIS de uma vez eu j tinha ido observar os casais nos bancos da praa, ou
passeando entre os jardins. O que me intrigava era o jeito meio solene, a
compostura deles. Por que ficavam sozinhos? Que  que tanto conversavam? E
principalmente, por que s vezes no diziam nada, calados um junto do outro,
como se estivessem aborrecidos ou pensando na morte da bezerra? Por que no
iam fazer alguma coisa, tratar da vida, cada um para o seu lado?
       Naquela poca no se admitia que os namorados nem mesmo se dessem
as mos -- a menos que j estivessem comprometidos: feito o pedido de
casamento e celebrado oficialmente o noivado, podiam os dois sair ento de
brao dado pela rua. Podiam at mesmo ficar conversando baixinho, sentados na
varanda ou no sof da sala, desde que na presena vigilante de algum -- em
geral a me da moa a tricotar na cadeira de balano.
       Eu j sabia tudo isto e sabia tambm que namorar, embora meio proibido
pelos pais, ou por isso mesmo, era uma coisa boa. Mas s para as meninas. Elas
 que no tinham outro assunto, principalmente as mais velhas, quando se
reuniam, aos risinhos e cochichos. Para ns, homens de sete, oito, nove anos,
namorar era uma bobagem, coisa para mulher. O que vinha a ser um contra-
senso: como as meninas poderiam se dedicar ao namoro, se os meninos no
pensavam em fazer o mesmo?
       Foi o que me levou naquele dia a quebrar a regra que nos havamos
imposto de no dar confiana s mulheres, e perguntar  Mariana se queria me
namorar. Jamais esperava uma negativa, e sua reao me deixou humilhado:
quem ela pensava que era? Alguma princesa?
       Mas num ponto no deixava de ter razo -- foi o que logo conclu:
namoro era coisa sria, de gente grande, e para toda a vida -- namoro, noivado,
casamento. No era brincadeira de menino. Por isso ela tinha escolhido um
homem para namorar e no queria saber de uma criana como eu. Pouco
importava que ela tambm fosse criana e ele um artista de cinema, que nunca
seria visto em carne e osso.
       Decidi fazer o mesmo. Passei a reparar nas artistas, a fim de escolher uma
para mim, a que me parecesse mais bonita. Em meio aos retratos de meus dolos,
que eram em geral jogadores de futebol e lutadores de boxe, passei a colecionar
tambm o de atrizes de cinema, em figurinhas que acompanhavam as balas
Fruna. Mas amava todas elas, indistintamente, no me decidia por nenhuma em
particular. Ao contrrio de Mariana, no me contentava em ter como namorada
algum que s existia no papel ou na tela.
       Foi quando surgiu em Belo Horizonte aquela que passou a encarnar na
vida real a figura do meu primeiro amor.
CNTIA era minha prima -- filha do irmo de mame, que morava no Rio.
Viera passar uns dias conosco. Era a primeira vez que eu tomava conhecimento
da sua existncia. Devia andar pelos dezessete, dezoito anos, o que queria dizer
que era para mim uma mulher feita -- e a mais bela que eu jamais vira de perto.
Usava blusa sem manga e com decote, saia-cala, tinha os cabelos louros, os
olhos verdes e ainda por cima fumava.
       Mame se escandalizou ao v-la tirar calmamente da bolsa um cigarro na
vista de todos e acender, para depois cruzar as pernas e soltar devagarinho a
fumaa pelas narinas:
       -- Voc fumando, menina? Seu pai sabe disso?
       -- Ora, titia, que  que tem de mais?
       -- Uma moa direita no fuma.
       -- Hoje em dia toda mulher fuma. No  mais pecado.
       E ela desviou da testa uma madeixa de cabelos, movimentando a cabea
para o lado num gesto que me pareceu simplesmente lindo.
       A sua presena fez com que nossa casa ganhasse uma aura de encanto,
como um lugar privilegiado, de um fascnio que parecia impregnar o prprio ar
que eu respirava. Quando ela surgia na sala, tudo se iluminava. Eu voltava
correndo da escola para no perder um minuto da sua presena, e no arredava
p de casa, nem mesmo para ir ao quintal, meu reino esquecido. Mame
estranhava aquela mudana nos meus hbitos:
       -- No sei o que deu nesse menino.
       Nem eu mesmo sabia que estava experimentando pela primeira vez a
sensao inebriante de uma paixo.
       Como se fosse pouco, Cintia tocava piano. Eu ficava a seu lado,
embevecido, a ver as mos longas e brancas deslizando pelas teclas do velho
piano na sala de visitas. Em casa ningum tocava, a no ser eu mesmo,
batucando o Bife com dois dedos, escondido de meu pai: ele costumava dizer,
certamente para silenciar a musiquinha insuportvel, que ela atraa o demnio.
Cintia sabia uma poro de melodias americanas, chamadas de fox-trot. Veio
da, creio, o meu gosto pelo jazz:
       -- Toca de novo aquela primeira, Cintia.
       Ela tocava esta e aquela, a meu pedido. Depois atirava para o lado,
naquele gesto seu, a cortina de cabelos que lhe caa no rosto. Um dia, ao dar
comigo a contempl-la, extasiado, inclinou-se rindo e me deu um beijo no rosto.
       Meu corao disparou, e eu com ele: sa correndo da sala, fui me refugiar
no fundo do quintal, pela primeira vez naqueles dias. E naquela noite no
consegui dormir. Era ela que eu via diante de mim, no escuro do quarto, tocando
piano, os cabelos louros, os olhos claros, a cena do beijo. Toninho, ao perceber
que eu continuava acordado, chegou a perguntar se eu estava sentindo alguma
coisa. No, eu no sentia nada -- a no ser o desejo de que a noite passasse
depressa e chegasse logo a manh para que eu pudesse rever a minha amada.
     Porque a partir daquele instante tomei conscincia de que Cntia era o
meu primeiro amor.


MAS o que  bom dura pouco. S medi a verdadeira extenso do sentimento que
me possua, quando surgiu um tormento para submet-lo  prova, na forma de
um rival:
       -- Voc vai sair com ele, Cntia? -- eu perguntava, como quem no quer
nada, ao v-la se penteando no quarto, enquanto o Peixoto esperava l fora, na
varanda.
       -- Vamos ao cinema -- ela respondia, diante do espelho, juntando os
lbios, como num beijo, para passar o batom.
       O Peixoto era um advogado recm-formado, de anel de grau no dedo, que
tivera um negcio qualquer com meu pai, e por causa disso freqentava a nossa
casa. Um dia deu com os olhos na minha prima e a partir de ento comeou a
aparecer com uma odiosa freqncia. Em pouco os dois passaram a sair juntos.
No se podia dizer que estavam de namoro, embora j tivessem at ido passear
na praa, como os demais namorados -- o que no escapou  minha vigilncia,
pois os havia seguido de longe. Mas para mim eram muito mais do que isso: ele
era um indesejvel, um intruso, um intrometido em nossa casa, e ela uma
traidora, por lhe dar tamanha confiana.
       -- Rapaz distinto, esse Peixoto -- dizia minha me, no fundo fazendo
gosto na relao dos dois: -- Leva a Cntia para passear, faz companhia a ela, e
 respeitador, a gente fica mais sossegada.
       Papai j no era assim to seguro da distino do rapaz:
       -- No sei no... No fundo me parece meio finrio, o que no  nada mau
para um advogado. Mas no v esse pilantra me aprontar alguma com a menina.
Com que cara eu ficaria diante do seu irmo? Afinal, ele nos confiou a filha...
       Era o que meus pais conversavam, sentados no sof da sala, depois do
jantar, julgando-se a ss, mas ao alcance de meus ouvidos -- eu por ali a me
fingir de distrado com algum brinquedo, na verdade atento a tudo que se
relacionasse  minha prima. E ela com o outro no cinema, no clube, no ch-
danante... Quase no parava mais em casa, a ingrata, mal tinha tempo para
mim. Eu odiava o Peixoto com todas as foras, ele acabou percebendo:
       -- O pirralho no vai muito comigo -- disse um dia.
       Fiquei indignado: me chamar de pirralho, e ainda por cima na vista dela!
Atingido em meus brios, resolvi reagir. Cheguei a pensar em acionar a sociedade
Olho de Gato, mas, pensando melhor, decidi me vingar sozinho: senti por
instinto que no devia envolver a agente Anairam em meus problemas
sentimentais. Aquilo era assunto para ser resolvido de homem para homem.
       Concebi um plano diablico para afastar da Cntia o meu insuportvel
concorrente. Comecei por intrig-lo com papai, farejando nele um bom
cmplice, embora inconsciente:
       -- O Peixoto esqueceu o isqueiro dele no quarto da Cintia.
       Ele havia realmente esquecido o isqueiro, mas com ela, e no no quarto.
S que para um corao em pnico valia tudo, inclusive uma mentirinha. Papai
ficou aborrecido:
       -- O salafrrio j est entrando no quarto da menina?
       E no perdeu tempo em comentar com mame:
       --  preciso a gente abrir o olho com esse moo.
       Alguns dias depois voltei  carga, desta vez com a prpria Cntia:
       -- Ontem eu vi o Peixoto l na Avenida de brao dado com uma moa.
       Ela no chegou a se impressionar -- talvez porque no soubesse o
compromisso que representava o brao dado, coisa que certamente no
prevalecia mais no Rio. Mas na verdade eu havia visto mesmo o meu rival de
brao com uma mulher. S que no era uma moa, podia ser at a me dele: uma
mulher mais velha, toda elegante e enfeitada.
       O Peixoto, ele prprio, era metido a elegante, sempre na ltima moda,
cala de flanela creme e palet azul-marinho, sapato de duas cores e suspensrio
de couro tranado, como se usava ento.
       Uma noite apareceu em nossa casa com a novidade das novidades: um
automvel, novinho em folha.
       -- Quero estre-lo com voc.
       Viera buscar minha prima para dar uma volta, e nem se dignou convidar
meus pais, que dir a mim, para ir com eles:
       -- No cabe todo mundo -- se escusou, empertigado: --  um carro
esporte.
       O carro era um daqueles chamados baratinhas, que se podia arriar a capota
e tinha uma tampa atrs com dois lugares (caberia mais gente, portanto).
Ficaramos sabendo depois que nem mesmo era dele, estava apenas emprestado,
em experincia, como se usava ento.
       Naquele tempo no se admitia tambm que uma moa de famlia andasse
sozinha no automvel de algum; corria logo o risco de ficar falada. No sei por
que meus pais no invocaram esse princpio moral, proibindo que ela fosse.
       Ali estava a minha oportunidade -- decidi rapidamente: criar uma
situao que deixasse o Peixoto para sempre desmoralizado diante da Cntia.
Que fazer? Jogar p-de-mico nele? J tinha pensado nisso -- mas podia atingi-la
tambm. Esvaziar o pneu? Botar gua no tanque de gasolina? Tudo o que me
ocorreu era pouco, no chegaria a comprometer o rival aos olhos da minha
amada.
       Foi quando dei comigo distraidamente alisando a cabea de
Hindemburgo, que se aproximara, orelhas em p, para saber de que se tratava.
       -- Quem sabe se eu atiar o Hindemburgo em cima dele...
       Imaginei o Peixoto fugindo espavorido, o cachorro nos seus calcanhares,
mordendo-lhe a perna, rasgando-lhe a cala...
       -- Ai no, Hindemburgo.
       Ao v-lo agachar-se, pernas traseiras ligeiramente abertas, ocorreu-me a
idia luminosa:
       -- A no, Hindemburgo! -- repeti, inspirado: -- No carro do Peixoto!
Depressa, no banco do carro! No lugar do motorista! Quando ele se sentar...
       Hindemburgo compreendeu logo e partiu como um foguete para cumprir a
sua misso.
       Quando o Peixoto se sentou, antes de abrir a porta para que a Cntia
entrasse tambm no carro, estava consumado o desastre. No houve passeio, no
houve nada: Peixoto, chafurdado no assento, partiu em disparada, numa onda de
mau cheiro, sem nem se despedir, e Cntia ficou livre dele -- eu esperava que
para todo o sempre.
       A p de cal seria lanada sobre ele alguns dias depois, quando papai
chegasse da rua com uma novidade:
       -- Me disseram que o Peixoto vive com uma amante mais velha do que
ele.
       Na hora, porm, para minha completa surpresa, a reao da Cntia se
voltou contra mim:
       -- Foi voc! Tenho certeza de que isso foi coisa sua, seu moleque!
       E se dirigiu aos meus pais, indignada, me apontando:
       -- Foi ele sim! Ele no gosta do Peixoto, eu sei disso!
       Eu no podia mais de emoo, petrificado diante de palavras to duras.
Eu, o seu namorado inconfesso, chamado de moleque! Meus pais reagiram cada
um  sua maneira: mame fazendo um ar de perplexidade que escondia a
indeciso entre acreditar ou no dar ouvidos, papai se pondo a rir:
       -- Se foi coisa do Fernando, foi um malfeito bem feito.
       E ainda teve o bom humor de acrescentar, ele que tambm no gostava do
Peixoto:
       -- Acho que foi coisa  do cachorro... Cntia tinha ido para o seu quarto,
ainda revoltada com o que havia acontecido. O desastre, afinal, se voltara contra
mim -- o mundo parecia ter desabado sobre a minha cabea.
       Naquela noite fui para a cama mais cedo, pretextando um mal-estar
qualquer. Mas no consegui dormir. Sem deixar que o Toninho percebesse,
passei grande parte da noite chorando.
NA MANHA seguinte encontrei debaixo de minha porta um envelope fechado.
Abri-o ansiosamente com o meu canivetinho, j adivinhando de quem seria.
Retirei um pequeno bilhete:




       Sa do quarto precipitadamente, mas no encontrei a Cntia na sala, nem
em seu quarto, nem em lugar nenhum. Dei com meu pai na copa tomando o seu
caf:
       -- Cntia foi embora? -- perguntei, aflito.
       -- Ela saiu -- ele informou tranqilamente, e acrescentou logo, rindo: --
Mas no com o Peixoto. Saiu com sua me, foram fazer compras na cidade.
       Cntia estava de partida na manh seguinte. No tive, desde ento,
oportunidade de estar com ela a ss um momento sequer, para de alguma
maneira responder ao seu bilhete. Quando fui para a escola, ela ainda no tinha
chegado, e ao voltar, ela estava em companhia de algumas amigas que havia
feito em Belo Horizonte, e que ficaram para jantar. S na manh seguinte pude
lhe dirigir uma palavra furtiva, j na hora de sua partida:
       -- Eu tambm, Cntia -- disse-lhe baixinho.
       -- Voc tambm o qu? -- e ela se curvou para me abraar, se
despedindo.
       Deu-me um beijo em cada face, e eu me aproveitei para sussurrar ao seu
ouvido:
       -- Eu tambm te amo.
       Ela ficou parada um segundo, surpreendida, e depois se abriu num sorriso
que eu guardo at hoje entre as lembranas mais lindas da minha vida.
       Depois que ela se foi, tranquei-me no quarto e busquei seu bilhete para
rel-lo ainda uma vez, por entre as lgrimas que me escorriam dos olhos. Ao
enfiar os dedos no envelope, puxei com o bilhete um outro pedao de papel,
onde, surpreso, dei com as seguintes palavras:
      Era apenas um pedao do bilhete, que eu havia cortado em dois ao abrir o
envelope. Juntei os pedaos e pude enfim ler o bilhete completo:




NAQUELA mesma tarde a Mariana, que andava sumida, deu o ar de sua graa:
   -- Ento, sua amiguinha j foi embora? -- perguntou com voz irnica.
   Respirei fundo, espantando de mim o resto da minha mgoa:
   -- Minha amiguinha  voc, Mariana.
                                                   CAPTULO X


A LIBERTAO DOS PASSARINHOS



D
          A JANELA do meu quarto, vi na mangueira uma linda manga
          sapatinho completamente amarela de to madura. Uma rolinha,
          pousada no galho, ameaava comear a com-la.
       Chamei a ateno da Mariana, ali a meu lado:
       -- Olhe s uma coisa.
       Eu tinha resolvido dar aquela manga de presente para ela. Tirei de um dos
bolsos da cala o meu bodoque, do outro algumas pedrinhas, escolhi a mais
jeitosa, armei o bodoque, fiz pontaria e atirei.
       Desde que era escoteiro, tinha aprendido que s devia usar o bodoque para
praticar o bem, como apanhar manga. Nunca para quebrar vidraa ou lmpada
de rua, e muito menos matar passarinho. Costumava armar uma pequena
arapuca no fundo do quintal para apanh-los e depois tornar a soltar, mesmo que
fosse um precioso canrio ou um lindo sabi: meu pai no admitia criar
passarinho em gaiola, achava uma perversidade. E tinha me transmitido esse seu
sentimento:
       -- Imagine se fizessem o mesmo com voc: te criassem dentro de uma
gaiola.
       Quando o Toninho apareceu l em casa com um casalzinho de periquitos
verdes, que ele tinha trocado com um menino pelos seus patins, papai mandou
imediatamente que soltasse os bichinhos:
       -- Depois te dou outro par de patins. De bichos aqui em casa, basta um
papagaio, um cachorro e um coelho. No se falando nas galinhas ali do seu
Fernando.
       Fazia aluso  minha galinha Fernanda, que por essa ocasio j tinha
morrido de velha. E arrematou:
       -- Isso de passarinho em gaiola  coisa desse soldado a do lado.
       O soldado a que ele se referia com aquele ar de desprezo era o major
Alberico Pape Faria, que morava na casa  direita da nossa. Mal sabia eu que em
breve esse major estaria em guerra declarada conosco. Ou ns com ele: no se
sabe quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha -- no caso, o passarinho.
TUDO parece ter comeado no dia em que a Mariana e eu estvamos no nosso
posto de observao, nos ltimos galhos da goiabeira junto ao muro que dava
para a rua, entregues a uma de nossas distraes prediletas: jogar gua nos que
passavam l fora, na calada. Usvamos uma velha seringa de borracha,
encontrada no quarto de despejo, e cuja serventia anterior no sabamos qual
tivesse sido. Chegamos ao requinte de prender numa forquilha a nosso lado um
balde cheio d'gua, para remuniciar a nossa arma, e no precisar de ficar
descendo e subindo o tempo todo.
       -- Vem gente -- anunciava Mariana, de sentinela, recolhendo depressa a
cabecinha, como o cuco de um relgio suo, e dando lugar a meu brao com a
seringa. Era um esguicho s. Jamais deixava de passar um grande susto na
pessoa l na rua, mesmo que fosse atingida apenas por alguns respingos.
       No era fcil acertar de cheio. Quando isso acontecia, o coitado saa
completamente encharcado. Ento despencvamos da goiabeira e amos em
disparada para dentro de casa. Ficvamos na sala, como se j estivssemos ali
longo tempo, empenhados numa distrao inocente qualquer, ao alcance da vista
dos mais velhos, para enfrentar uma possvel reclamao da vtima.
       A primeira que veio reclamar foi justamente o major Pape Faria.
       O homem havia tomado um verdadeiro banho. Mal pudemos esconder o
riso quando o vimos entrar, molhado como um pinto por um esguicho que lhe
havia encharcado a farda pelas costas, da cabea ao calcanhar. Veio reclamar do
meu pai, gua ainda escorrendo e pingando no cho:
       -- Olha s o que o diabo do seu filho me fez, Meu pai o olhou, espantado:
       -- Onde  que o senhor se molhou assim?
       -- Onde  que eu me molhei? -- respondeu o major, furioso: -- Pergunte
ali ao seu filho! Foi esse diabo que me molhou.
       -- Meu filho no  diabo, e est aqui na sala um tempo, brincando com a
amiguinha dele.
       -- Eu conheo muito bem tanto ele como essa amiguinha dele. Foram os
dois juntos. Mas isso no vai ficar assim.
       -- Nem um nem outro arredou p daqui um instante sequer. Como  que
podem ter jogado gua no senhor?
       -- Podem porque eles so capazes disso e de muito mais. Sei l se o que
me jogaram foi s gua? Pode perfeitamente ter sido coisa muito pior.
       O major passava a mo nas costas molhadas e levava ao nariz:
       -- Ainda bem que no est cheirando. Mas boa coisa  que esse menino
no .
       Meu pai se encrespou:
       -- Pode at no ser, mas no admito que o senhor venha  minha casa
para falar mal de meu filho.




       E se adiantou, abrindo a porta para que o major se pusesse para fora da
nossa casa. Ao se despedir, alm de rebaix-lo de posto, ainda errou o nome
dele:
       -- Passe bem, capito Patifaria.
       Mariana e eu no resistimos e soltamos uma gargalhada l da sala. O
major ficou furibundo:
       -- Patifaria no: PAPE FARIA! Patifaria foi o que aqueles dois me
fizeram. Fique sabendo que meu nome  Alberico Pape Faria, major do exrcito
e no capito. E fique sabendo tambm que serei tenente-coronel antes do fim
do ano. Isso no vai ficar assim.
       Com esta ltima ameaa, deu meia-volta e, depois de fazer para mim um
sinal com a mo de quem diz "voc me paga", saiu marchando com passo duro.
       Estava declarada a guerra.
       -- Capito Patifaria! -- gritvamos, toda tarde, ao passar em frente  casa
dele. Tocvamos a sineta, sacudindo o porto, e saamos correndo. s vezes
papai ouvia, mas, em vez de zangar, achava graa. Mame ficava preocupada:
       --  melhor a gente chamar a ateno desses meninos. O major pode ser
antiptico, mas eu sei muito bem de que meu filho  capaz, se comear a
implicar com ele. Isso ainda acaba mal. O homem  importante, pode nos
prejudicar.
       -- Importante l para os soldados dele -- retrucava meu pai
tranqilamente: -- Sou paisano e ele que cuide de sua importncia, que de meu
filho cuido eu.
       At que um dia, quando gritvamos "capito Patifaria!" debaixo da janela
dele, sem que o major aparecesse como sempre, e antes que sacudssemos o
porto tocando a sineta, senti de sbito uma mo pesada me segurar pelo ombro.
Mariana o viu primeiro e fugiu correndo, a gritar:
       -- Cuidado, Fernando! Corre tambm!
       Era tarde. Voltei-me e dei de cara com o major, mos estendidas para me
agarrar pelo pescoo, talvez at me estrangular. Dei uma ginga de corpo como
costumava fazer no futebol. Ele avanou por um lado, eu escapuli por outro. Ele
ainda me acertou um violento cascudo no alto da cabea, antes que eu
conseguisse fugir com quantas pernas tinha.
       -- Isso no vai ficar assim! -- repeti de longe a sua ameaa, quando me
vi a salvo.




E REALMENTE no ficou. Juntei-me  Mariana para tramarmos uma vingana
 altura do cascudo que ele me tinha dado e que me deixou com dor de cabea o
dia inteiro.
       Naquela mesma noite, antes de nos recolhermos, esticamos um arame do
poste de luz na calada ao porto da casa dele, para que ele tropeasse quando
fosse sair. No dia seguinte ficamos sabendo que isso tinha mesmo acontecido,
pois o vimos passar com o nariz esborrachado como uma goiaba bichada, e na
testa uma cruz de esparadrapo que a aba do quepe no chegava a ocultar.
       Alguns dias depois, foi a vez do major. Eu estava com alguns amigos
jogando futebol na rua, quando a bola caiu no jardim da casa dele. Era domingo,
dia de nenhum movimento, e no nos dvamos ao trabalho de ir jogar no
campinho de peladas do lote vazio, que era inclinado e no plano como o asfalto
em frente  nossa casa.
       -- E agora? -- nos entreolhamos, sem saber o que fazer, com medo do
major.
       Resolvemos escalar o Turco, que era o mais forte de todos, para ir buscar
a bola: ele era o que corria menos risco de levar um cascudo do homem.
       -- Pede licena com delicadeza -- avisamos ainda.
       Em pouco o Turco voltava, com lgrimas nos olhos:
       -- Olha s o que ele fez com a sua bola, Fernando.
       E mostrou-nos a bola reduzida a tiras de couro, toda cortada a navalha.
       -- Por que voc no meteu a mo na cara dele? -- protestamos,
indignados.
       -- Eu? -- e o Turco fez um ar de quem, mesmo sendo grandalho, no
era nada bobo: -- O homem estava com um revolvo deste tamanho na cintura!
       Guerra  guerra -- agora era a nossa vez de agir.
       Com a inteno de articularmos o prximo lance, convoquei a Mariana
para uma reunio em meu quarto. Depois de pensarmos e repensarmos vrios
planos, foi que eu me debrucei na janela e vi a tal manga madura.
       Esquecido por um instante do major Pape Faria e suas patifarias, resolvi
oferec-la  Mariana, que era louca por manga, derrubando-a com uma certeira
bodocada. O que para mim era fcil: bastava acertar um pouco acima, no cabo
que a prendia ao galho, para que a pedra no a machucasse, atingindo a polpa,
como aquela rolinha estava quase fazendo...
       A pedra partiu zunindo, realmente certeira, mas a rolinha  que tombou,
atingida na cabea.


MARIANA e eu nos olhamos, estarrecidos: matar um passarinho! Para ns,
como disse, aquilo era um pecado imperdovel. A coisa mais bonita que Deus
havia feito! Quem magoasse uma daquelas criaturinhas era como se fizesse mal
a uma criana, no merecia salvao.
        Ento nos precipitamos at o quintal, para ver se a rolinha no estaria
apenas machucada, talvez houvesse tempo de salv-la.
        No havia. Estava morta, cada ao cho, asas semi-abertas, a cabea
tombada para baixo, ensangentada. Segurei nas mos o seu corpinho ainda
quente, como se pudesse preservar nele um resto de vida.
        -- E agora? -- perguntou Mariana, impressionada.
        -- No adianta: est morta mesmo.
        Foi ento que me veio, no sei por que, uma idia maldita, diablica,
como uma tentao soprada do prprio inferno:
        -- Agora s serve para comer.
        No sei por que disse aquilo, e com tanta naturalidade. No me espantei
nem um pouco quando Mariana perguntou, com mais naturalidade ainda:
        -- Voc sabe preparar?
        -- Sei.  s depenar e limpar, como a Alzira faz com as galinhas. Depois
a gente acende uma fogueirinha e assa no espeto.
        E comecei a arrancar as penas da rolinha morta, uma por uma. Estava
difcil, pois no me lembrei que era preciso antes mergulhar em gua bem
quente. Acabei deixando esta parte para depois:
        -- Vamos primeiro limpar por dentro.
        No fundo, eu talvez estivesse querendo ver como era por dentro um
passarinho. E Mariana, a meu lado, olhos bem atentos, parecia partilhar da
minha curiosidade. Abri a barriga da rolinha com o canivetinho e comecei a
retirar com o dedo tudo que havia l dentro, como se fosse o recheio de uma
boneca. S que era uma matria mole, viscosa, molhada de sangue, que
comeou a me causar o maior nojo, senti vontade de vomitar. At que no meio
de tudo aquilo, surgiu um pedao de carne compacto, do tamanho da ponta do
meu dedo, era o corao dela. Mostrei para Mariana, no podendo mais de
emoo: as lgrimas me escorreram pelo rosto. Mariana tambm chorava,
baixinho, de pena da rolinha, ou por me ver chorando, no sei bem -- o certo 
que ns dois nos entregvamos a uma crise de choro incontrolvel.
       -- E agora? -- Mariana balbuciou, entre soluos.
       -- Vamos enterrar -- decidi, enxugando o rosto e procurando conter o
choro.
       Ela foi correndo  sua casa, enquanto eu abria uma pequenina cova na
terra mida, junto ao tronco da mangueira. Em pouco estava de volta, trazendo
uma caixa de sabonete Arax vazia e ainda perfumada. Recolhemos dentro dela,
em respeitoso silncio, os restos mortais da rolinha, fechamos a tampa com
cuidado e depusemos dentro da cova, com gestos lentos que j obedeciam a um
grave ritual. Tampamos com terra, e fizemos um montinho de pedras em forma
de tmulo, no qual espetamos uma cruz de dois paus de fsforo amarrados com
linha. Depois fizemos o nome-do-padre e rezamos um padre-nosso e uma ave-
maria pela alma da rolinha.


NAQUELA noite no pude dormir (no dia seguinte saberia que o mesmo
aconteceu com Mariana). Sentia que fizera algo de terrvel, sujo e pecaminoso.
No por ter matado um passarinho. Aquilo acontecera sem eu querer, Deus era
testemunha. A minha culpa era de haver profanado o seu cadver, com a
inteno de com-lo. Como se eu fosse um selvagem, um animal!
       Foi ento que me ocorreu a idia que concederia o perdo por aquela falta
aparentemente imperdovel: praticar uma boa ao para compens-la.
       Quando contei a idia  Mariana, demos saltos de alegria ao descobrir que
a boa ao, por ns logo tramada, seria ao mesmo tempo o esperado troco ao
major Pape Faria, pela patifaria que havia cometido cortando a minha bola.
       Ao dizer que passarinho preso era "como esse soldado a do lado", meu
pai estava se referindo aos passarinhos que o vizinho criava, no s em gaiolas
na varanda da casa, como no imenso viveiro ao fundo de seu quintal.
       Esse viveiro sempre foi um de meus deslumbramentos: pintassilgos, tico-
ticos, canrios, sanhaos, periquitos, bicos-de-lacre e mil outros passarinhos se
confundiam ali dentro em constante agitao. Eu subia no muro e ficava horas a
olhar aquela passarinhada toda revoando l dentro, em busca de uma sada,
alguns empoleirados pelos cantos, tristes porque no podiam mesmo escapar. E
me dava vontade de solt-los.
       Era o que iria fazer agora.
       A sociedade secreta Olho de Gato foi reativada, para o cumprimento
daquela perigosa operao. Estenderamos agora a natureza de suas atividades
ao campo das misses subversivas. Deixamos, entretanto, de convocar os
agentes Hindemburgo e Pastoff, pois, em se tratando de passarinhos, no
sabamos se atuariam conosco para solt-los ou para com-los.
       A operao ficou marcada para aquela noite. Como precauo, armei-me
do bodoque e do revlver de espoleta.
       Sair de casa depois que todos houvessem dormido no nos foi difcil: j
tnhamos feito aquilo mais de uma vez.
       Nos encontramos no quintal e, sem uma palavra, pulamos o muro do
vizinho. O que tambm nos foi fcil: subamos e andvamos pelos muros como
gatos -- e por sinal que encontramos mais de um por ali naquela noite. Parece
que farejavam a novidade, e queriam ver se sobrava alguma coisa para eles, os
assassinos.
       Atravessamos como duas sombras o jardim do vizinho, passando por cima
dos canteiros com cuidado para no fazer barulho. Subimos primeiro  varanda e
abrimos uma a uma as gaiolas ali dependuradas. Alguns passarinhos acordavam
espantados e fugiam logo. Outros custavam a entender o que se passava, tinham
de ser retirados com a mo e atirados no ar para sair voando.
       Depois retrocedemos at o quintal e fomos libertar os do viveiro. O que
no foi to fcil: a porta era presa por um cadeadinho que tive de arrebentar,
com o auxlio de uma pedra.
       -- Cuidado, Fernando -- Mariana me sussurrava ao ouvido, assustada: --
Voc est fazendo muito barulho...
       Aberta finalmente a porta, para que a passarinhada sasse logo, tive de
entrar eu prprio no viveiro e espant-la com os braos em direo  sada.
Numa revoada em torno da minha cabea, batendo as asas e entre cantos e
chilreios, eles iam escapando.
       Foi quando ouvi a voz ansiosa da Mariana l fora, montando guarda:
       -- Perigo  vista! Esconde depressa!
       Vi que uma luz se acendera no andar superior da casa. Uma cabea
apareceu. Logo surgiu o cano de uma carabina, ouviu-se um estampido, uma
fumacinha, e alguma coisa passou assobiando pelo meu ouvido. Atirei-me ao
cho, puxando imediatamente o meu revlver de espoleta e atirando tambm,
uma, duas vezes. O cano da carabina e a cabea do major imediatamente
sumiram, a luz se apagou.
       -- Psiu, fique quieta -- soprei para Mariana que se deitara no cho, a meu
lado, junto a porta do viveiro. Eu sabia que agora ele estava de volta a janela, no
escuro, para nos surpreender fugindo, pronto a atirar de novo.
       Tnhamos de escapar dali de qualquer maneira. Lembrei-me do bodoque,
que havia trazido tambm. Assim mesmo deitado, armei-o com uma pedra das
maiores, fiz pontaria na sineta do porto, alm do jardim, iluminado pela luz da
rua, e atirei. A pedra partiu zunindo e acertou em cheio no alvo: a sineta
comeou a tocar, como se algum sacudisse o porto.
       Consegui enganar o inimigo: logo o vulto do major surgia na varanda,
esgueirando-se junto  parede, curvado para a frente, carabina engatilhada, e
descendo a escada furtivamente a caminho do porto.
       -- Agora -- ordenei baixinho para Mariana.
       Partimos em disparada e pulamos o muro, voltando para o quintal de
minha casa. Respiramos, aliviados, e nos despedimos, indo cada um para sua
casa antes que comeasse a confuso.
       Que no demorou muito. O major ps-se a gritar por socorro, dizendo que
estava sendo assaltado. Um guarda-noturno da Praa da Liberdade ouviu a
gritaria, chamou seus colegas, avisou a policia inteira. Vieram at a Polcia
Militar e a do Exrcito, pois o assaltado era um oficial. Em poucos minutos a
nossa rua virava uma praa de guerra. O major contou que os assaltantes,
surpreendidos por ele no quintal, haviam reagido com um tremendo tiroteio, por
pouco ele no morreu. Como eram muitos, conseguiram fugir, levando consigo
o produto do assalto, isto , todos os exemplares de sua preciosa criao de
passarinhos.
       -- Vale uma verdadeira fortuna! -- afirmava, enfurecido.


TUDO isso,  lgico, ficamos sabendo no dia seguinte, ao escutar, com ar
inocente, os comentrios dos mais velhos. Para que no desconfiassem de ns,
achamos prudente nos afastarmos dali. E fomos nos refugiar no poro. Quando
nos viu passar, Godofredo ps-se a papagaiar, entusiasmado:
       -- Bravos, Fernando! Bravos, Mariana!
       O papagaio vibrava com a nossa faanha. Como  que ele soubera?
       -- Esse camarada ainda vai acabar nos entregando -- falei, preocupado.
       E sugeri a Mariana que passssemos alguns dias sem nos vermos. Mas
antes, ao entardecer daquele mesmo dia, fomos de mos dadas fazer uma visita
ao tmulo de nossa desventurada rolinha, junto  mangueira do quintal. Como
homenagem  sua memria, fizemos a ela a oferenda do nosso feito, libertando
seus irmozinhos.
      E estvamos ali, banhados pela luz cor-de-rosa do belssimo pr-do-sol de
Belo Horizonte, quando uma coisa maravilhosa aconteceu. Como se brotassem
do cu, bandos e bandos de passarinhos de vrios tamanhos e mil cores
diferentes, vindos de todos os lados, se agrupavam no ar, em alegre revoada, at
formar um verdadeiro enxame de asas em formao cerrada. E vieram todos
para o nosso lado, voando em crculos cada vez menores e mais baixos, em meio
a uma sinfonia de cantos, chilreios e trinados, centralizando-se em cima de
nossas cabeas. Rodopiavam no ar como uma guirlanda de pequeninos seres
alados, girndola vinda do cu para nos abenoar com a sua gratido. Rodaram
vrias vezes e depois o crculo se desfez, e seguiram todos em linha reta,
afastando-se como uma nuvem multicor at desaparecer em direo ao infinito.
                                                         EPLOGO

O HOMEM E O MENINO



P
        ARO de escrever, levanto os olhos do papel para o relgio de parede:
        cinco horas. As sonoras pancadas comeam a soar uma a uma, como
        antigamente em nossa casa.
 um relgio bem antigo. Foi do meu av, depois do meu pai, hoje  meu
e um dia ser do meu filho. Seu tique-taque imperturbvel me acompanha todas
as horas de viglia o dia inteiro e noite adentro, segundo a segundo, do tempo
vivido por mim.
       J contei vrias proezas, aventuras, peripcias, tropelias (e algumas
lorotas) do tempo em que eu era menino. Nada se compara ao mistrio que eu
trouxe da infncia e que at hoje me intriga: quem era aquele desconhecido que
um dia, depois da chuva, foi conversar comigo no fundo do quintal?
       Na hora pensei que fosse algum amigo da famlia, ou at parente: um
velho primo ou tio que eu no conhecesse. Cheguei, mesmo, a achar que ele se
parecia um pouquinho com meu pai -- mas foi s impresso: quando perguntei
quem ele era, papai me disse que no tinha a menor idia, pois nem chegou a v-
lo. Minha me tambm no soube dizer, muito menos o Gerson ou o Toninho. A
Alzira se limitou a dizer que me tinha visto conversando sozinho, como eu fazia
sempre.
       S restava perguntar ao Godofredo, mas o papagaio no queria saber de
conversa comigo: seu entusiasmo pela nossa faanha libertando os passarinhos
j havia passado.
       Hindemburgo e Pastoff talvez pudessem esclarecer alguma coisa, pois me
haviam visto conversando com ele. Mas no sabiam falar, como o Godofredo,
nem mesmo responder com sinais, como a Fernanda, que infelizmente j havia
morrido. E que  que uma galinha poderia saber a respeito de um homem, de
cuja existncia os outros at duvidavam?
       E no fiquei sabendo, e at hoje me pergunto: quem seria ele?
       Cansado de tantas recordaes, afasto-me do relgio e caminho at a
janela, olho para fora.
       Assombrado, em vez de ver os costumeiros edifcios, cujos fundos do
para o meu apartamento em Ipanema, o que eu vejo  uma mangueira -- a
mangueira do quintal de minha casa, em Belo Horizonte. Vejo at uma manga
amarelinha de to madura, como aquela que um dia quis dar para a Mariana e
por causa dela acabei matando uma rolinha. Daqui da minha janela posso avistar
todo o quintal, como antigamente: a caixa de areia que um dia transformei numa
piscina, o bambuzal de onde parti para o meu primeiro vo. Volto-me para
dentro e descubro que j no estou na sala cheia de estantes com livros do meu
apartamento, mas no meu quarto de menino: a minha cama e a do Toninho, o
armrio de cujo espelho um dia se destacou um menino igual a mim...
       Saio para a sala. Vejo meus pais conversando de mos dadas no sof,
como costumavam fazer todas as tardes, antes do jantar. Comovido, dirijo-me a
eles:
       -- Papai... Mame...
       Mas eles no me vem. Nem parecem ter-me ouvido, como se eu no
existisse. Ganho o corredor, passo pela copa onde o relgio est acabando de
bater cinco horas. Atravesso a cozinha, vendo a Alzira a remexer em suas
panelas, sem tomar conhecimento da minha existncia. Deso a escada para o
quintal e dou com um garotinho agachado junto s poas d'gua da chuva que
caiu h pouco, entretido com umas formigas. Dirijo-me a ele, e ficamos
conversando algum tempo.
       Depois me despeo e refao todo o caminho de volta at meu quarto. Vou
 janela, olho para fora. O que vejo agora  a paisagem de sempre, o fundo dos
edifcios voltados para mim, iluminados pelas luzes do entardecer em Ipanema.
Ouo o relgio soando a ltima pancada das cinco horas. Viro-me, e me vejo de
novo no meu apartamento.
       Caminho at a mesa, debruo-me sobre a mquina que abandonei h
instantes. Leio as ltimas palavras escritas no papel:
       ... at desaparecer em direo ao infinito.
       Sento-me, e escrevo a nica que falta:
                                       FIM
FERNANDO (Tavares) SABINO nasceu em Belo Horizonte, a 12 de outubro de
1923. Fez o curso primrio no Grupo Escolar Afonso Pena e o secundrio no
Ginsio Mineiro, em Belo Horizonte. Aos 13 anos escreveu seu primeiro
trabalho literrio, uma histria policial publicada na revista Argus, da polcia
mineira.
       Passou a escrever crnicas sobre rdio, com que concorria a um
concurso permanente da revista Carioca, do Rio, obtendo vrios prmios. Uniu-
se logo a Hlio Pellegrino, Oito Lara Resende e Paulo Mendes Campos em
intensa convivncia que perduraria a vida inteira. Entrou para a Faculdade de
Direito em 1941, terminando o curso em 1946 na Faculdade Federal do Rio de
Janeiro.
       Ainda na adolescncia publicou seu primeiro livro, Os Grilos No
Cantam Mais (1941), de contos. Mrio de Andrade escreveu-lhe uma carta
elogiosa, dando incio  fecunda correspondncia entre ambos. Anos mais
tarde, publicaria as cartas do escritor paulista em livro, sob o ttulo Cartas a um
Jovem Escritor (1982). Em 1944 publica a novela A Marca e muda-se para o
Rio. Em 1946 vai para Nova York, onde fica dois anos, que lhe valeram uma
preciosa iniciao na leitura dos escritores de lngua inglesa. Neste perodo
escreveu crnicas semanais sobre a vida americana para jornais brasileiros,
muitas delas includas em seu livro A Cidade Vazia (1950). Iniciou em Nova
York o romance O Grande Mentecapto, que s viria retomar 33 anos mais tarde,
para termin-lo em dezoito dias e lan-lo em 1976 (Prmio Jabuti para
Romance, So Paulo, 1980), com sucessivas edies. Em 1989 o livro serviria
de argumento para um filme de igual sucesso, dirigido por Oswaldo Caldeira.
       Em 1952 lana o livro de novelas A Vida Real, no qual exercita sua
tcnica em novas experincias literrias, e em 1954 Lugares-Comuns -
Dicionrio de Lugares-Comuns e Idias Convencionais, como complemento 
sua traduo do dicionrio de Flaubert. Com O Encontro Marcado (1956),
primeiro romance, abre  sua carreira um caminho novo dentro da literatura
nacional.
       Morou em Londres de 1964 a 1966 e tornou-se editor com Rubem Braga
(Editora do Autor, 1960, e Editora Sabi, 1967). Seguiram-se os livros de
contos e crnicas O Homem Nu (1960), A Mulher do Vizinho (1962, Prmio
Fernando Chinaglia do Pen Club do Brasil), A Companheira de Viagem (1965),
A Inglesa Deslumbrada (1967), Gente I e II (1975), Deixa o Alfredo Falar!
(1976), O Encontro das guas (1977), A Falta que Ela me Faz (1980) e O Gato
Sou Eu (1983). Com eles veio reafirmar as suas qualidades de prosador, capaz
de explorar com fino senso de humor o lado pitoresco ou potico do dia-a-dia,
colhendo de fatos cotidianos e personagens obscuros verdadeiras lies de vida,
graa e beleza.
       Viajou vrias vezes ao exterior, visitando pases da Amrica, da Europa e
do Extremo Oriente e escrevendo sobre sua experincia em crnicas e
reportagens para jornais e revistas. Passa a dedicar-se tambm ao cinema,
realizando em 1972, com David Neves, em Los Angeles, uma srie de
minidocumentrios sobre Hollywood para a TV Globo. Funda a Bem-te-vi
Filmes e produz curtas-metragens sobre feiras internacionais em Assuno
(1973), Teer (1975), Mxico (1976), Argel (1978) e Hannover (1980). Produz e
dirige com David Neves e Mair Tavares uma srie de documentrios sobre
escritores brasileiros contemporneos.
       Publicou ainda O Menino no Espelho (1982), romance das
reminiscncias de sua infncia, A Faca de Dois Gumes (1985), uma trilogia de
novelas de amor, intriga e mistrio, O Pintor que Pintou o Sete, histria infantil
baseada em quadros de Carlos Scliar, O Tabuleiro de Damas (1988), trajetria
do menino ao homem fato, e De Cabea para Baixo (1989), sobre "o desejo de
partir e a alegria de voltar" - relato de suas andanas. vivncias e tropelias pelo
mundo afora...
       Em 1990 lanou A Volta por Cima, coletnea de crnicas e histrias
curtas. Em 1991 a Editora tica publicou uma edio de 500 mil exemplares de
sua novela "O Bom Ladro" (constante da trilogia A Faca de Dois Gumes) um
recorde de tiragem em nosso pas. No mesmo ano  lanado seu livro Zlia,
Uma Paixo. Em 1993publicou Aqui Estamos Todos Nus, uma trilogia de ao,
fuga e suspense, da qual foram lanadas em separado, pela Editora tica, as
novelas "Um Corpo de Mulher", "A Nudez da Verdade" e "Os Restos Mortais".
Em 1994 foi editado pela Record Com a Graa de Deus, "leitura fiel do
Evangelho, segundo o humor de Jesus". Em 1996 relanou, em edio revista e
aumentada, De Cabea para Baixo, relato de suas viagens pelo mundo afora, e
Gente, encontro do autor ao longo do tempo com os que vivem "na cadncia da
arte". Tambm em 1996, a editora Nova Aguilar publicou em 3 volumes a sua
Obra Reunida Em 1998 a Editora tica lanou, em separado, a novela "O
Homem Feito", do livro A Vida Real, e Amor de Capitu, recriao literria do
romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. E ainda em 1998, alm de O
Galo Msico, "contos e novelas da juventude  maturidade, do desejo ao amor",
a Record editou, com grande sucesso de crtica e de pblico, o livro de crnicas
e histrias No Fim D Certo - "se no deu certo  porque no chegou ao fim" - e
em 1999, A Chave do Enigma No mesmo ano foi agraciado com o Prmio
Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra.
       Tendo lanado em 2001 uma coletnea completa de "pginas soltas ao
longo do tempo", sob o ttulo Livro Aberto, no mesmo ano publicou as Cartas
Perto do Corao - sua correspondncia com Clarisse Lispector - "dois jovens
escritores unidos ante o mistrio da criao".
DO AUTOR


-- Os grilos no cantam mais, contos
-- A marca, novela
-- A cidade vazia, crnicas de Nova York
-- A vida real, novelas
-- Lugares-comuns, dicionrio
-- O encontro marcado, romance
-- O homem nu, contos e crnicas
-- A mulher do vizinho, crnicas
-- A companheira de viagem, contos e crnicas
-- A inglesa deslumbrada, crnicas
-- Gente, crnicas e reminiscncias
-- Deixa o Alfredo falar!, crnicas e histrias
-- O encontro das guas, crnica sobre Manaus
-- O grande mentecapto, romance
-- A falta que ela me faz, contos e crnicas
-- O menino no espelho, romance
-- O gato sou eu, contos e crnicas
-- O tabuleiro de damas, esboo de autobiografia
-- De cabea para baixo, relatos de viagem
-- A volta por cima, crnicas e histrias
-- Zlia, uma paixo, romance-biografia
-- Aqui estamos todos nus, novelas
-- A faca de dois gumes, novelas
-- Os melhores contos, seleo
-- As melhores histrias, seleo
-- As melhores crnicas, seleo
-- Com a graa de Deus, leitura fiel do Evangelho segundo o humor de Jesus
-- Macacos me mordam, conto em edio infantil, ilustraes de Apon
-- A chave do enigma, crnicas, histrias e casos mineiros
-- No fim d certo, crnicas e histrias
-- O galo msico, contos e novelas
-- Cartas perto do corao, correspondncia com Clarice Lispector
-- Livro aberto, pginas soltas ao longo do tempo
-- Cartas na mesa, aos trs parceiros, meus amigos para sempre: Hlio
Pellegrino, Oito Lara Resende e Paulo Mendes Campos
-- Cartas a um jovem escritor e suas respostas, correspondncia com Mrio
de Andrade (Editora Record).
-- A vitria da infncia, crnicas e histrias
-- Martini seco, novela
-- O bom ladro, novela
-- Os restos mortais, novela
-- A nudez da verdade, novela
-- O outro guine da faca, novela
-- Um corpo de mulher, novela
-- O homem feito, novela
-- Amor de Capitu, recriao literria
-- Cara ou Coroa?, seleo infanto-juvenil
-- Duas novelas de amor (Editora tica)
-- Os caadores de mentira, edio infanto-juvenil (Editora Rocco)
-- O pintor que pintou o sete, histria infantil inspirada em quadros de Carlos
Scliar (Editora Berlendis & Vertecchia)
-- Obra reunida (Editora Nova Aguilar).


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